Ana Hudson 

on Lyrikline: 50 poems translated

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ruščina | Andrei Sen-Senkov


если здесь идёт дождь
то идёт очень долго

это напоминает
прозрачное переливание крови


большинство здешних (совершенно нездешних)
причудливых насекомых
словно нарисованы
во время
красиво прерванного полового акта


белому богу скучно в африке
и когда к нему приходят
прячется за дверь
притворяясь ребёнком
и меняя голос
«не могу открыть.
родителей нет дома»




aqui quando chove
chove por muito tempo

assim como
uma transfusão de sangue translúcdo


a maioria dos insectos esquisitos
deste mundo (que não são nada deste mundo)
parecem ter sido concebidos
durante um coito magnificamente interrompido


a deus branco aborrece-se em África
a quando tem visitas
atrás da porta
a fingir que é criança
e diz com uma
"Não posso abrir a porta,
os meus pais não estão em casa" 

Tradução de Ana Hudson
Four Centuries. Russian Poetry in Translation. — Essen: Perelmuter Verlag, 2014, Nr. 8.


portugalščina | Daniel Jonas

Fechar a tampa do abrigo
e respirar
com serena convulsão
lançando o grande dirigível da escrita

depois retesar o arpão
e espremer o choco polvo
seus tentáculos tensos
na placa marmórea
ou na balança

é um negócio violento,
a testa escreve-se, um mundo progride,
decanta-se a bolha do nível,
esgaça-se a gaze

depois da fenomenologia dos petroleiros
a refinaria,
o guarda-nocturno de olhos
na trovoada e solidão
no monitor.

© Daniel Jonas
from: Os Fantasmas Inquilinos
Lisboa: Cotovia, 2005
Audio production: Gravado nos Estúdios da Bica em Abril de 2017. Produção Alexandre Cortez. / Recorded at Estúdios da Bica, April 2017. Produced by Alexandre Cortez.



You close the shelter’s trapdoor
and breathe
in serene convulsion
launching writing’s large dirigible balloon

then you stiffen the harpoon
and squeeze the octopus squid,
its tensed up tentacles,
on the marble top
or on the scales

it’s violent stuff,
the brow writes itself, the world progresses,
the levelling bubble is decanted,
the gauze is frayed

after the phenomenology of the oil tankers,
the refinery,
the night-guard, his eyes set
on the storm and on the loneliness
of the CCTV screen.

Translated from the Portuguese by Ana Hudson


portugalščina | Daniel Jonas

Estúpido outono
a tudo impondo sua ferrugem
como num velho armazém de ferragens
a artrose ganhando dobradiças
e as espirais
a parafusos zonzos.

E estas árvores são também
impossíveis: árvores
como furgonetas com seus toldos
esvoaçantes, rangendo
a grande dor da

Estúpidas árvores: cada copa
um enleio de fios,
uma instalação eléctrica pública
de Calcutá, fundindo
o céu, seu
capote puindo.

Ou este outono é só
uma betoneira
regurgitando o seu betão zonzo.
Estúpido outono. E que erro
tomar os meus olhos
por um aterro!

© Daniel Jonas
from: Os Fantasmas Inquilinos
Lisboa: Cotovia, 2005
Audio production: Gravado nos Estúdios da Bica em Abril de 2017. Produção Alexandre Cortez. / Recorded at Estúdios da Bica, April 2017. Produced by Alexandre Cortez.



Stupid autumn
imposing its rust on everything,
arthrosis conquering the hinges
and the spirals from
giddy screws
like in an old hardware warehouse.

And also these trees are
impossible: trees
like vans with their flying
canvas covers, grinding
the great pain
of change.

Stupid trees: each top
an entanglement of wires,
a public electric installation
out of Calcutta, smelting
the sky, fraying
its canopy.

Or this autumn is just
a concrete mixer
regurgitating its dizzy slime.
Stupid autumn. And
what a misconstruction
to take my eyes for
a building plot!

Translated from the Portuguese by Ana Hudson


portugalščina | Daniel Jonas

Eu ficarei à espera de que as uvas
das minhas videiras
à luminosidade da palavra

© Daniel Jonas
from: Os Fantasmas Inquilinos
Lisboa: Cotovia, 2005
Audio production: Gravado nos Estúdios da Bica em Abril de 2017. Produção Alexandre Cortez. / Recorded at Estúdios da Bica, April 2017. Produced by Alexandre Cortez.

Resistance to theory


I’ll be waiting for the grapes
of my vineyards
to ripen
in the luminosity of the word

Translated from the Portuguese by Ana Hudson


portugalščina | Daniel Jonas

Provavelmente noutro tempo, noutras circunstâncias
chegaríamos a iguais resultados
pelo que de nada adianta imaginar um almagesto
ou tabelas de paralaxe para isto
a que convencionalmente chamamos amor,
nem calcular o ângulo
entre nós e o centro da terra,
de nada nos aproveitara, tu e eu
centros escorraçados de irregular gravitação.

Porém, isso não me impediu de ver plêiades
cada vez que surgias (só
não te dizia nada) plêiades iluminando
meu Hades
com suas cabrinhas coruscantes
o vale da sombra da morte.

E a questão hoje é: who’s gonna drive you home tonight?
quando o melancólico transístor
destila também outras perguntas, mas nenhuma
tão dura quanto essa,

por exemplo: porque é que a água tem mais tendência
a subir em tubos estreitos
ao contrário do mercúrio?
Isto é view-master e são coisas que faço
na tua ausência.

© Daniel Jonas
from: Os Fantasmas Inquilinos
Lisboa: Cotovia, 2005
Audio production: Gravado nos Estúdios da Bica em Abril de 2017. Produção Alexandre Cortez. / Recorded at Estúdios da Bica, April 2017. Produced by Alexandre Cortez.

Probably at another time, in other circumstances


Probably at another time, in other circumstances
we would reach similar results
so there’s no use imagining an almagest
or tables of parallaxes for this
that we conventionally call love,
nor should we try to calculate the angle
between us and the centre of the earth;
we would gain nothing, you and I,
dejected centres of irregular gravitation.

But this didn’t prevent me from seeing the Pleiades
every time you appeared (only
I told you nothing), the Pleiades lighting up
my Hades
with its flashing little goats
in the valley of the shadow of death.

And the question today is: who’s gonna drive you home tonight?
as the melancholy transistor
distills yet other questions, but none
as hard as that one,

for example: why is it that water tends
to rise within narrow tubes
unlike mercury?
This is view-master and these are things that I do
in your absence.

Translated from the Portuguese by Ana Hudson


portugalščina | Daniel Jonas

Não quero nada claro ou helénico.
Prefiro turbinas de aviões comerciais, a sua fuligem
às velas de alabastro do veleiro de Ulisses
lá em mar alto.
Prefiro o eclipse a Calipso.
Não quero nada de verdadeiramente branco.
Dispenso a asa delta de garças,
o seu voo aerodinâmico,
troco-o pela arribação de ratos no esgoto,
a sua pressa chinesa,
o seu stress pós-traumático:
orgulham-me criaturas tão limpas.
Assim também recuso o papel branco:
trato de o desfigurar
com sangue negro, como se desfigura
um branco em Harlem.
Não quero começar a imaginar como se sentiriam
escravos nos campos de algodão.

© Daniel Jonas
from: Os Fantasmas Inquilinos
Lisboa: Cotovia, 2005
Audio production: Gravado nos Estúdios da Bica em Abril de 2017. Produção Alexandre Cortez. / Recorded at Estúdios da Bica, April 2017. Produced by Alexandre Cortez.



I don’t want anything bright or Hellenic.
I prefer commercial airplane turbines, their
homey soot
to the alabaster sails of Ulysses’ ship
there on the high seas.
I prefer the eclipse to Calypso.
I don’t want anything truly white.
I dismiss the herons’ delta wing,
its aerodynamic flight,
I trade it for the scurrying of rats in the sewer,
their Chinese rush,
their post-traumatic stress:
I’m proud of such clean creatures.
I also refuse the white page:
I set out to disfigure it
with black blood, like a white man
becomes disfigured in Harlem.
I won’t even begin to imagine how slaves
might have felt in the fields of cotton.

Translated from the Portuguese by Ana Hudson


portugalščina | Daniel Jonas

O meu poema teve um esgotamento nervoso.
Já não suporta mais as palavras.
Diz às palavras: palavras
ide embora,
ide procurar outro poema
onde habitar.

O meu poema tem destas coisas
de vez em quando.
Posso vê-lo: ali distendido
em cama de linho muito branco
sem perspectivas ou desejo

quedando-se num silêncio
como um poema clorótico.

Pergunto-lhe: posso fazer alguma coisa por ti?
mas apenas me fixa o olhar;
fica a li a fitar-me de olhos vazios
e boca seca.

© Daniel Jonas
from: Os Fantasmas Inquilinos
Lisboa: Cotovia, 2005
Audio production: Gravado nos Estúdios da Bica em Abril de 2017. Produção Alexandre Cortez. / Recorded at Estúdios da Bica, April 2017. Produced by Alexandre Cortez.

My poem had a nervous breakdown


My poem had a nervous breakdown.
It cannot bear words any longer.
It tells them: words
go forth,
find another poem
where you can make a home.

This sort of thing can happen to a poem of mine
from time to time.
I can picture it: slumped
on the lily-white linen bed
without prospects or desire

locked in silence
as if it were anemic.

I ask it: can I do anything for you?
but it just stares back at me;
it sits there looking at me with empty eyes
and a dry mouth.

Translated from the Portuguese by Ana Hudson

[Não há lugares, nunca houve, nem mesmo antigos]

portugalščina | Rui Cóias

Não há lugares, nunca houve, nem mesmo antigos.
Há o que olhamos neles, a sua marca de pó de tijolo que os faz sumir.
Só assim conseguimos chegar. Só brandamente, para lembrarmos. 
Não para tocar as colunas liláses ou fazer a travessia no veleiro das tangerinas.
Só vagamente andamos. Não caminhamos, debaixo do sol.
Os pés dos nómadas não enegrecem com as areias e as águas de pequenos portos.
São os ulmeiros que nos protegem e não os seus terraços. A marca de pó fere-nos numa gota desmaiada, podemos entretê-la mesmo entre os dedos que não petrifica. Nada mudou desde o primeiro queixume: — foi com os olhos que partimos na linha do Mediterrâneo e são as oliveiras o seu diurno limite. 

© Rui Cóias
from: A Ordem do Mundo
Edições Quasi, 2006
Audio production: Gravado nos Estúdios da Bica em Abril de 2017. Produção Alexandre Cortez. / Recorded at Estúdios da Bica, April 2017. Produced by Alexandre Cortez.

[Places don’t exist, never existed, not even the ancient ones]


Places don’t exist, never existed, not even the ancient ones.
What exists is what we see in them, the brick dust traces making them vanish. Only thus we’ll land. Lightly, just for the remembrance.
Not in order to touch the lilac columns or go across on the tangerine sailing boat. Only vaguely we progress.  We don’t walk under the sun.
The nomads’ feet are not blackened by the sand and the sea in small ports.
The elms shelter us, not the terraces. The dust traces bruise us with a faint drop we can wile between our fingers and still it doesn’t solidify. Nothing has changed since the first lament: — the eyes taking us along the Mediterranean horizon are our eyes, and the olive trees its day-long boundary.

Translated from the Portuguese by Ana Hudson

[Não há mais vidas, nem o recomeço delas por algum fim]

portugalščina | Rui Cóias

Não há mais vidas, nem o recomeço delas por algum fim,
nem o amor nos deixará um sorriso insinuante,
nem o passado deixará frestas insinuantes no presente,
nem no meu tempo levemente tocarei,
nem deus nos tocará numa terra de ninguém,
nem por ela passarei sem que me lembre,
nem por ela passarei.
Deixaram-nos promessas a esperança longínqua,
o halo de ombros espraiado em areias quentes,
e cada expiro foi o último sem que o soubéssemos

— tão fraco é que não o notamos extinguir-se, dissipar o seu alento hesitante, escorrer o fumo ralo de não mais ter sido que o estampido de um vulto a desviar-se. Que há-de ser de nós, se só uma verdade é a verdade — que nela se exerce a nossa vida, só aparência vigilante, a estancar a luz em movimento, e o vazio do movimento, a suspirar cada nome próximo — jamais visto, massacrado, que há-de ser — que há-de tornar-se, embora instantaneamente adormecidos noutra coisa, como a imaginar o sol num campo de azeitonas ou a doçura evanescente que contempla, embora amando, ouvindo chamar ao perto, rente ao espelho, embora o beijo seja a resumida força, como um filho — que há-de ser de nós?

E as vinhas descem — tão demoradamente descem, e silenciamos, já pensando na hora que virá — e meu pai aponta os olivais vedados, em chama, e a sua voz escapa-se da tarde à noite, por um túnel

— meu pai afirma, com os cães em fundo, que o caminho acaba aqui, meu pai repete que o caminho acaba aqui, com os cães ao fundo

— e todos amamos o mundo, e o que dele passa em cada ponto, e a origem de cada um, a presença, e o adeus

— todos amamos o mundo soçobrado, a espiga no cume, o segredo

— todos tememos a respiração inócua, a nossa hora — o desvio embaciado, e o incenso,

o desvio que já adiante vem, que já adiante vem a retinir.

© Rui Cóias
from: A Ordem do Mundo
Edições Quasi, 2006
Audio production: Gravado nos Estúdios da Bica em Abril de 2017. Produção Alexandre Cortez. / Recorded at Estúdios da Bica, April 2017. Produced by Alexandre Cortez.

[There are no lives left, nor is there a new beginning]


There are no lives left, nor is there a new beginning through their endings, nor will love bestow on us an insinuating smile,
nor will the past leave insinuating breaches in the present,
nor will I lightly touch my time,
nor will god touch us in no man’s land,
nor will I pass through it without remembering,
nor will I just pass through.
We were left with promises of a distant hope,
our shoulders’ halo spread over hot sands,
and each outward breath was the last without us knowing it 

-– it’s so slight that we don’t notice its extinguishing, the dispelling  of its hesitating rustle, the drifting of the faint smoke of our having been no more than the crash of a swerving body. What will become of us if only one truth is the truth  -– our life being exerted in it, nothing but a vigilant semblance halting the flow of the moving light, and the void of movement whispering each immediate name – never seen, yet to be slaughtered, yet to become –  even if we are  momentarily numbed into something else as if imagining the sun on a field of olives or the evanescent gentleness it contemplates, its lovingness nonetheless, its close call touching the mirror although its kiss is its regained strength, just like a son  -– what will become of us?

And the vines descend — slowly descend, and we are hushed, anticipating the time to come — and my father points at the enclosed olive groves ablaze, and his voice in the night escapes the afternoon, through a tunnel

-– my father declares, watching the dogs in the distance, this is the end of the path, my father  insists this is the end of the path, the dogs in the distance 

-– and we all love the world, and what happens in it at every step, and the origin of each one of us, the presence, the parting

-– we all love the overturned world, the spike on its summit, its secret

-– we all fear the innocuous breathing, our  departing hour – the lustreless detour, and the incense,

the impeding detour, its announcing toll. 

Translated from the Portuguese by Ana Hudson

[As vozes partiram]

portugalščina | Rui Cóias

As vozes partiram.

Voaram para fora do terraço deixando-os sós.

Os homens têm medo de chorar sozinhos.

Por isso escutam as histórias prodigiosas uns dos outros. Assim toleram o amor falhado, o amor flectindo na face como cachos de uvas. Os homens perderam-se, ficaram desamparados e retidos com medo da noite.

Não voltarão a estender-se no cansaço branco da juventude. Apertam nas mãos rosários de oiro sob os alpendres e deixam-se fitar pelas mulheres que passam altivamente. Ao fim da noite adoecem no calor dos terraços, escutam em silêncio os poemas de Kavafis. Ao fim da noite, as mulheres apaixonam-se perdidamente por eles e dão-lhes as almas para que as protejam.

© Rui Cóias
from: A Função do Geógrafo
Edições Quasi, 2000
Audio production: Gravado nos Estúdios da Bica em Abril de 2017. Produção Alexandre Cortez. / Recorded at Estúdios da Bica, April 2017. Produced by Alexandre Cortez.

[The voices are gone]


The voices are gone.

They flew from the terrace and left us alone.

Men are scared of pining on their own.

So they listen to prodigious stories about one another. Thus they endure failed loves, loves mirrored on their faces like a bunch of grapes. Men are lost, they stand desolate and caged in fear of the night.

They won’t recline again on the white weariness of youth. They clasp golden rosaries in their hands  under the porches allowing the passing women to stare, supercilious. At the close of night, they languish in the heat of the terraces, listening in silence to Kavafis’ poems. At the close of night, women fall utterly in love with them and offer their souls in exchange for shelter.

Translated from the Portuguese by Ana Hudson

[Andaste de um ao outro lado da terra na vida interminável]

portugalščina | Rui Cóias

Andaste de um ao outro lado da terra na vida interminável,
tiveste degredos, piedosos cíumes, a fé desvanescida,
amantes paradas na lavoura, roubando-te o rosto amado.
Viste vestígios de que foste a sombra de ninguém,
olhos sem pudor, do reflexo dos ferros no tropel,
franjas do domínio pueril de Alexandre, olhando Gaugamela.
Partiste num porto de transição para o Levante,
com vazios para trás, todo o tempo a poder ver,
e ao primeiro Inverno, pelos cardeais das suas cinzas,
começaste a travessia que não termina, a história que não acaba.
Soubeste porque se vislumbra, em lágrimas, o pinheiro da juventude,
o nome quebrado num turvo ar medido sem corda,
e a maresia do vento de feição no segundo Inverno.
Em troca perseguiste o que rege o homem fortuito,
segredando em palácios de mármore que são apenas pedras,
dos fracassos a que jamais alguém ajoelhara.
Ao terceiro Inverno descobriste o hemisfério, e ao quarto,
sem ideia de guerra ou ordem para mudar o reino,
escolheste adornar os aquedutos sob o manto dos regatos,
sentado, na brisa no tanque, ao febril entardecer.
De quem te aproximaste, no seu trajecto interminado,
sem lugar senão o que esfria na mente recortada,
naquilo que se ramifica, tornando-se na própria teia,
contigo propagou o dever de passar em toda a parte.
E quando veio o quinto Inverno, e o sexto, suturaste o sangue,
trouxeste a pele à curva dos rios, acolheste o que de resto se desmorona,
e pudeste enfim, na crença dos migradores furtivos, entender que
tudo se perde noutro lugar ainda, e após esse ainda noutro
e que ao fim de cada manhã noutra manhã
tudo é incerto, tão conforme o dente-de-leão no meio de searas,
tão emudecido como a veia exausta dos não sepultados.
Na mansarda onde vagueia o dia e a noite
o vento responde, cortando o centeio e o calcário, e a vela
que brilha na luz de estrelas veladas, já desaparecidas,
pisadas, mudas, engolidas aos pés do sétimo Inverno,
arpoa o coração e a ruína; os meridianos despem-se, voam
em vinte e cinco anos que há pouco se beijavam, e seja dito ou não dito
o prazer que inflige um pico de tormentos
por lábios que só as mulheres conhecem
no moinho das águas da morte em Varanasi,
sacode a chama de quanto vale, dura e canta
o princípio e o fim do teu poder na terra.

© Rui Cóias
from: Europa
2016: ed. Tinta da China,
Audio production: Gravado nos Estúdios da Bica em Abril de 2017. Produção Alexandre Cortez. / Recorded at Estúdios da Bica, April 2017. Produced by Alexandre Cortez.

[You wandered an interminable life across the earth]


You wandered an interminable life across the earth,
suffered exile, piteous jealousy, futile faith,
labour-arrested lovers plundering your beloved’s face.
You saw traces of having been no one’s shadow,
impudent eyes, the reflection of iron on the rampage,
hints of Alexander’s puerile dominance, contemplating Gaugamela.
You set off from a transient port towards the Levant,
leaving emptiness behind, seeing all of time,
and in the first Winter, by the cardinals of its ashes,
you started the endless crossing, the incessant history.
You knew, because the pine tree of youth can be glimpsed through tears,
of the shattered name in a cloudy mood measured without ropes,
and of the favourable sea breeze in the second Winter.
In exchange you pursued that which rules the fortuitous man,
whispering in marble palaces that are but stones,
failures to which no one had ever knelt.
By the third Winter you discovered the hemisphere, and by the fourth,
non intent on war or order to change the kingdom,
you chose to adorn aqueducts with the mantle of streams,
sitting by the pool breeze, in the evening´s lingering fever.
Whomever you approached, in their indefinite path,
without a place except that which fades inside a patchy mind,
in that which branches out and becomes the very web,
has spread with you the duty to pass through everywhere.
And by the fifth Winter, and the sixth, you stitched up the blood,
brought the skin on to the river bends, welcomed that which falls apart,
and were at last capable, with the belief of a stealthy migrant, of understanding
that all is lost yet in another place, and after this in yet another
and that by the end of each morning in another morning
all is uncertain, just like a dandelion in a field of wheat,
as muted as the exhausted vein of the unburied.
In the attic where night and day roam
the wind replies, cutting the chalk and the rye, and the candle,
shimmering in the light of the veiled stars already gone,
trodden, voiceless, swallowed up by the seventh Winter,
spears the heart and the ruin. The meridians undress, fly away
in twenty five years that were just kissing yesterday, and be it told or untold
the pleasure that brings a peak of torment, inflicted
by lips that only women know
in the turmoil of Varanasi´s death waters,
tests the flame of the merit, endurance and song of
the beginning and the end of your power on earth.

Translated from the Portuguese by Ana Hudson

Et in Arcadia ego

portugalščina | Rui Cóias

Que longe, entre os relvados,
quando a alma avultava nos vigorosos pensamentos, e ficava ilesa
eu seguia imune os solitários vidoeiros
através do céu atravessado pela chama de ouro inútil
da cidade da Arcádia.
E por nos ser indiferente a juventude; por
esse amor aos belos, pela noite submissamente isolada na mudez, a vida
porque tão perto do que passa
era aquilo que o futuro ainda desconhece, iludindo o fim desse futuro.
Mas nós somos atraídos aos mortos jovens; amamos
com desdém a vida breve
para cairmos exaustos, no engano. Aquela, como escuras sebes
concilia o ânimo sobre o peito — este
por ser o derradeiro, o que culmina, a voz raspada noutra voz, esse coração
que, nosso, não pensa no que nasce
deixa ao caminho uma rosa possessiva, e julga o amor
pelo mesmo pensamento.

© Rui Cóias
from: revista Relâmpago nº 26
Fundação Luís MIguel Nava, 2010
Audio production: Gravado nos Estúdios da Bica em Abril de 2017. Produção Alexandre Cortez. / Recorded at Estúdios da Bica, April 2017. Produced by Alexandre Cortez.

Et in Arcadia ego


How far, amidst the glades,
when the soul delighted in vigorous thoughts and remained untouched
pierced by the useless golden flame
of the city of Arcadia, I imperviously followed
the lonely birches across the sky.
And because youth is indifferent to us; because
of that love for the beautiful, through the night, submissively alone in its muteness,
life, so close to the ephemeral,
was that which the future stills ignores, deluding this future’s end.
But we are drawn to the young dead; we love
with contempt life’s briefness
till exhausted we stumble into deception. That life which, as a dark hedge,
reconciles the spirit with the heart — the latter
because it is the last, the utmost, the voice scraped off another voice, this
heart, our heart, which doesn’t reflect on what is born
drops on the road an overwhelming rose, and judges love
in the same spirit.

Translated from the Portuguese by Ana Hudson


portugalščina | Daniel Jonas


Estes dois gigantes
com suas fundas
de David
trocando entre si

a pedra

até falharem

o outro.


Homens nobres
acertando as suas diferenças
no court.

Por vezes sobem à
mas nenhum pode transpor

o arame farpado
entre os acianos.

O sol arde
no duelo.

Um deles cairá no cobalto
traído pela bola de jogo.

O sol arderá nele;
anjo caído,
magnífica bola de fogo.


O peixe fluorescente dá
à pequena rede

mas esta rebate-o
ao profundo azul ciano

esperando que se
péla tragada na voragem

© Daniel Jonas
from: Unpublished
Audio production: Gravado nos Estúdios da Bica em Abril de 2017. Produção Alexandre Cortez. / Recorded at Estúdios da Bica, April 2017. Produced by Alexandre Cortez.




These two giants
with their David

an optical-yellow

till finally
one misses

the other.


Noble men
settling their differences
on court.

They may come to the
but none may go over

the barbed wire
separating the cornflowers.

The sun is blazing
over this duel.

One man will fall on the cobalt,
betrayed by match point.

The sun will inflame him;
fallen angel,
magnificent fireball.


The fluorescent fish is caught
by the small net

but is hit
into the deep cyan-blue

hoping to be lost
in a voracious gulp

© Translated by Ana Hudson, 2010


portugalščina | Daniel Jonas

Trabalho e trabalho
para dar à luz um pai
na minha solidão de depauperado
arado que nada sulca
porque como um comboio a que faltaram carris
prévios ao meu arado são seus sulcos.

Sou um filho circular. Como um signo
zodiacal sou um filho circular, requer o que faço
aquilo em que me movo
que é aquilo em que me movo
o que faço e como fazê-lo
se não tenho já em que me mova? O que faço
é o que me fez.

Sou comboio e arado e um rodado
sem discos. Sem paralelo em círculos
rotunda tristeza propago
de vertiginosa incubação de vórtices
que ajudo a solidificar: outra vez a sólida
solidão: é fácil a primeira imagem do comboio:

insta à compaixão. E são pesados os bois
circulares que o meu arado
entontece, em vão o rodado
sem discos. Quanto pesarão
bois entontecidos? Como ser pai
quando se é filho?

© Daniel Jonas
from: Os fantasmas inquilinos
Lisboa: Cotovia, 2005
ISBN: 9789727951253
Audio production: Gravado nos Estúdios da Bica em Abril de 2017. Produção Alexandre Cortez. / Recorded at Estúdios da Bica, April 2017. Produced by Alexandre Cortez.



Work and more work
to give birth to a father
in my loneliness as a decaying
plough that ploughs nothing
because like a train in need of tracks
the furrows precede my ploughing.

I’m a circular son. Like a sign
of the Zodiac I’m a circular son, what I do 
needs what I’m moving in
which is where I move
what I do and how can I do it
if I no longer have what to move in? What I do
is what made me.

I am train, plough and turn table
with no records. Unparalleled I spread
in circles a rotund sadness
from the incubation of a vertiginous vortex
which I help to solidify: once again the solid
solitude: the first image of the train is easy:

it urges compassion. And the circular oxen are
heavy made dizzy by my plough,
and the turning table turns in vain
without records. How heavy can
dizzy oxen be? Like being a father
when you are the son?

© Translated by Ana Hudson, 2010


portugalščina | Daniel Jonas

São tristes os meus dias com pedras
em lugar de mãos
ou a cabeça funda na brancura
de través do travesseiro
e o corpo depresso em moles guindastes.
São dias de chorar por menos
ou teimar queixoso com um crânio polido,
batuque convexo
no muro demorado.

Ficar a ouvir o sangue,
o som tubular do sangue. Ao vale seco
da clavícula atrair a água, o sangue
e sorver a sopa intestina
ou se o líquido escapa à boca
tantálica, calar com argila
o que me pede água.

Ficar a palpar os buracos
da ausência, as ligas
da ausência, as ribanceiras
a que caem os pensamentos, a cor
dióspiro que banha a enfermidade
e em seguida tomar o pulso
evadido, travar o touro, o soco da dor,
o infinito infinitivo presente.

Uma amálgama de alma
migra no fôlego de modorrento
pregão de dor, o condor
passa e anda andino e é uma
traça asfixiante: faço um céu rarefeito,
a dispneia é um felino
que arranha céus
e a boca rebuliço espúmeo
expele o sabor da morte
e o que mais consiga cuspir
por entre ovéns e enxárcias
e traves quebradas.

É uma desilusão com as coisas,
uma desilusão funda com as coisas,
com o vazio meio-cheio das coisas.
Meu fôlego um fólio cheio
de silêncio, uma catástrofe natural

um vulcão: no meu pulmão pôr lava
e no trovão treva.

© Daniel Jonas
from: Os Fantasmas Inquilinos
Lisboa: Cotovia, 2005
Audio production: Gravado nos Estúdios da Bica em Abril de 2017. Produção Alexandre Cortez. / Recorded at Estúdios da Bica, April 2017. Produced by Alexandre Cortez.



Sad are my days with stones
instead of hands
or my head sunk into the deep
whiteness of my pillow
and my body squashed by feeble cranes.
Those are days to cry for less
or to plaintively argue with a shiny skull,
a convex tapping
on the lingering wall.

To stay listening to the blood,
the tubular sound of the blood. Drawing the
water, the blood, into the dry valley
of the collarbone, slurping the intestinal
soup, or if the liquid escapes
the tantalising mouth, stuffing with clay
what is begging for water.

To stay probing into the holes
of absence, the straps of
absence, the pit where
thoughts fall, the persimmon
colour that bathes infirmity
and then to feel the fading
pulse, halt the bull, the stab of pain,
the infinite present infinitive.

A suffused soul
migrates with the sturdy breadth
of a painful street cry, ‘el condor
passa’ and walks the walk and is
an asphyxiating chalk: I paint a rarefied sky,
my dyspnoea is a feline
that scrapes the skies,
and my mouth in foamy turmoil
expels the taste of death
and whatever else it manages to spit out
through stays and shrouds
and broken beams.

Things disappoint me so,
things are deeply disappointing
and so is their half-filled emptiness.
My breath is a folium full
of silence, a natural catastrophe,

a volcano: laying lava in my lung
and darkness in my thunder.

Translated from the Portuguese by Ana Hudson


portugalščina | Daniel Jonas

A juba encanecida do dente-de-leão.
Eu soprei-a como velas
de aniversários
e ele envelheceu anos.

Ali, tão calvo agora, o ancião,
um leão glabro
entupido de testosterona,
um Sanção

com a sua cerviz rente
dos quadris da fêmea
a fome de uma semente.

© Daniel Jonas
from: Passageiro Frequente
Língua Morta, 2013
Audio production: Gravado nos Estúdios da Bica em Abril de 2017. Produção Alexandre Cortez. / Recorded at Estúdios da Bica, April 2017. Produced by Alexandre Cortez.



A ring of birthday candles,
I blew
the dandelion’s hoary mane
and how much older he grew.

There he is now, an old
bald smooth lion
clogged with testosterone,
a Samson

with a shaven neck
from female hips
the hunger of seed.

© Translated by Ana Hudson with Gabriel Gbadamosi, 2014

Experience After Blake

gruzinščina | Shota Iatashvili

ხელში რომ ჩაგაჭკნება
და ვარაუდობ,
დრო გაქროლდა,
მაგრამ შეთავაზებებმა
ამოხადა მას მხოლოდ სული.

აფსუს, ვარდნო ნათელფურცლოვანნო.
უხეირო შემთავაზებელთა ხელში.

აფსუს, უხეირო შემთავაზებელნო,
ხელგაშვერილ ქანდაკებებად დამდგარნო.

აფსუს, ძალავ,
ვარდის ჭკნობად ტოტებს რომ ბღუჯავ.

© შოთა იათაშვილი / Shota Iatashvili
Audio production: G. Leonidze State Museum of Georgian Literature

Experience After Blake


A rose
Fades as I hold it in my hand
As I suppose
Time speeds by
But in fact only intentions
Are wearing it out.

Oh, the bright beaded roses
In unworthy hands.

Oh, the undeserving
Who stand like hand-stretched statues.

Oh, the force
That drives the rose into destruction.

Translated by Ana Hudson

Escreve sempre que precisares

portugalščina | Margarida Ferra

Escreve sempre que precisares de me dizer
que há gelo nas tuas mãos e nas paredes do frigorífico.
Os legumes que trouxe ontem
não sobrevivem a mais do que uma geada,
muito menos nós.

Escreve sempre que precisares, podes
dizer-me outra vez que nunca houve inverno,
que este ano não há verão,
que estamos aqui e não estamos porque não sabemos
se somos nós ou se somos aquelas
quatro pessoas que vão à rua agora,
encontraram a porta certa.

Escreve sempre que precisares, faz
uma lista de compras, uma lista de desejos,
anota todos os pedidos que deixaste
em poemas atrasados.
Escreve sempre que precisares
de mais um postal com selo e carimbo.
Escreve sempre que riscares
na tua agenda mais uma morada.

Sempre que eu precisar vais devolver-me
uma caligrafia rebuscada que não é a tua,
curvas a mais que não fazias na letra d.
Já não há desses manuscritos,
só eu e os carteiros aprendemos a decifrá-los
(e toda a gente sabe que nem isso é verdade).
Vai escrevendo. Sempre que eu precisar,
as frases podem desviar deixas decoradas,
repetidas como as mentiras,
demasiado gastas para serem inócuas.

Escreve em vez de costurares.
Mesmo que soubesses, não há remendos suficientes,
arranhaste sem possibilidade de cura os joelhos,
os cotovelos e as canelas
(dançar sempre foi um antídoto fora do teu alcance).
Escreve que eu vejo nas tuas as minhas quedas,
os meus soluços nessas curvas
a mais que não fazes na letra d:
as tuas linhas são rectas, verticais e justas,
as minhas letras são apenas caracteres.

Escreve sempre que puderes
só em vez de apenas,
recursos humanos em vez de
resíduos urbanos. Talvez sejamos mais
do que pessoas, temos tamanhos diferentes
e não servimos nos lugares que nos foram destinados.

Escreve sempre que precisares de uma porta
onde caibas,
nunca trago chaves comigo.

© Margarida Ferra
from: Magazine «Correntes d’Escritas 2011»
Póvoa do Varzim, 2011
Audio production: Câmara Municipal de Lisboa, 2012

Write whenever you need


Write whenever you need to let me know
there is ice on your hands and on the inside of the fridge.
The vegetables I brought yesterday
won’t survive more than one frost,
and neither will we.

Write whenever you need to, you may
tell me again that winter never came,
that this year there won’t be any summer,
that we are and are not here because we don’t know
whether we are us or those
four people who are going out now,
having found the right door.

Write whenever you need, make
a shopping list, a wish list,
note down all the requests you left
in unfinished poems.
Write whenever you need
another postcard with a dated stamp.
Write whenever you strike
yet another address from your diary.

Whenever I need it, you’ll write back
in a far-fetched hand which isn’t yours,
much too rounded on the letter d.
Those writings no longer exist,
only I and the postman ever learned to decipher them
(and everybody knows even this isn’t true).
Keep writing. Whenever I need
sentences that can avoid expressions learned by heart,
repeated like lies,
too worn out to be innocuous.

Write instead of sewing.
Even if you knew how, you couldn’t do enough mending,
your knees, elbows and ankles
torn beyond repair
(dancing has always been a remedy out of your reach).
Write that I see your falls in mine,
my sobbing in that excessive
roundness of the letter d:
your lines are straight, vertical and just,
my letters are only characters.

Whenever you can,
write lonely instead of only,
human resources instead of
urban residuals. We are perhaps more
than just people, we are different sizes
and do not fit into our designated places.

Write whenever you need a door
through which you can fit,
I never carry any keys.

Translated by Ana Hudson, 2013
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7. [Ontem adormeceste, ainda]

portugalščina | Margarida Ferra

Ontem adormeceste, ainda
tínhamos as facas todas na boca
e três por abrir.
Ficou uma pousada
em equilíbrio geométrico
na linha dos lábios.
Não sei de quem eram
esses lábios onde
o gume imóvel não deixava sair
as palavras duras
e, mais tarde, os pesadelos.
Outras o cabo na minha mão,
esqueci-a antes da última
costela flutuante
depois do coração.

De manhã éramos só nós, frios,
e a memória das cinzas na rua.

A terceira foi como se nunca tivesse existido.

© Margarida Ferra
from: Curso Intensivo De Jardinagem
Lisboa: Ed. &etc., 2010
Audio production: Câmara Municipal de Lisboa, 2012

7 [Yesterday you fell asleep...]


Yesterday you fell asleep, we
still had all the knives in our mouths,
three unused.
One stood
geometrically balanced
on the contours of the lips.
I don’t know who owned
those lips out of which
the still blade prevented
harsh words from coming
and, later on, the nightmares.
Another knife, the one I held in my hand,
I dropped before reaching
that floating rib
next to the heart.

In the morning there was only us, cold,
and the memory of ashes in the street.

The third knife was as if it had never been.

Translated by Ana Hudson, 2013
first on:" ">

[Lê, são estes os nomes das coisas que]

portugalščina | Maria do Ros

Lê, são estes os nomes das coisas que
deixaste – eu, livros, o teu perfume
espalhado pelo quarto; sonhos pela
metade e dor em dobro, beijos por
todo o corpo como cortes profundos
que nunca vão sarar; e livros, saudade,
a chave de uma casa que nunca foi a
nossa, um roupão de flanela azul que
tenho vestido enquanto faço esta lista:

livros, risos que não consigo arrumar,
e raiva – um vaso de orquídeas que
amavas tanto sem eu saber porquê e
que talvez por isso não voltei a regar; e
livros, a cama desfeita por tantos dias,

uma carta sobre a tua almofada e tanto
desgosto, tanta solidão; e numa gaveta
dois bilhetes para um filme de amor que
não viste comigo, e mais livros, e também
uma camisa desbotada com que durmo
de noite para estar mais perto de ti; e, por

todo o lado, livros, tantos livros, tantas
palavras que nunca me disseste antes da
carta que escreveste nessa manhã, e eu,

eu que ainda acredito que vais voltar, que
voltas, mesmo que seja só pelos teus livros.

© Maria do Rosário Pedreira
from: Nenhum Nome Depois
Gótica, 2004
Audio production: Casa Fernando Pessoa/CML

[Read this, these are the names...]


Read this, these are the names of the things you
left – me, books, your smell filling
the room; half the dreams and twice
the pain, kisses all over my body
like deep cuts which will
never heal; and more books, loss,
the key of a house that was never
ours, a blue flannel dressing gown
I’m wearing as I write this list:

books, laughter I can’t put away,
and rage – a pot of orchids you loved
so much without my knowing why and I
haven’t watered since; and
books, the bed unmade for so long,

a letter on your pillow and so much
sorrow, so much loneliness; and in a drawer
two tickets for a romantic film you
didn’t watch with me, and more books, and also
a discoloured old shirt I wear for sleeping
to be close to you; and every-

where, books, so many books, so many
words you never said before the letter
you wrote that morning, and me,

me still believing you’ll be back, you will
be back, if even only for your books.

Translated by Ana Hudson with Gabriel Gbadamosi, 2012
first on:" ">

[Vem ver-me antes que eu morra de amor — o sangue]

portugalščina | Maria do Rosário Pedreira

Vem ver-me antes que eu morra de amor — o sangue
arrefece dentro do meu corpo e as rosas desbotam
nas minhas mãos. Da minha cama ouço a tempestade
nos continentes; e já quis partir, deixar que o vento
levasse a minha mala por aí; fiz planos de correr mundo
para te esquecer — mas nunca abria a porta.

Vem ver-me enquanto não morro, mas vem de noite —
a luz sublinha a agonia de um rosto e quero que me recordes
como eu podia ter sido. Da minha cama vejo o sol
tatuar as costas do meu país; e já sonhei que o perseguia,
que desenhava o teu nome no veludo da areia e sentia
a vida pulsar nessa palavra como um músculo tenso
escondido sob a pele — mas depois acordava e não ia.

Vem ver-me antes que morra, mas vem depressa —
os livros resvalam-me do colo e o bolor avança
sobre a roupa. Da minha cama sinto o perfume das
folhas tombadas nos caminhos, O outono chegou. E o quarto
ficou tão frio de repente. E tu sem vires. Agora
quero deitar-me no tapete de musgo do jardim e ouvir
bater o coração da terra no meu peito. Os vermes
alimentam-se dos sonhos de quem morre. E tu não vens.

© Maria do Rosário Pedreira
from: O Canto do Vento nos Ciprestes
Lisboa: Gótica, 2001
Audio production: Casa Fernando Pessoa/CML

[Come to me before I die of love...]


Come to me before I die of love – blood
is cooling inside my body and roses are fading
in my hands. From my bed I hear the storms
on the continents; I’ve already felt like leaving, letting the wind
randomly carry my suitcase; I planned to travel the world
to forget you – but I never opened the door.
Come to me while I’m not dead, but come by night –
light only underlines the sorrows of a face and I want you to remember me
as I might have been. From my bed I see the sun
tattooing my country’s coasts; and I dream I’m chasing it,
drawing your name on velvet sands and feeling
life pulsating in the word like a tensed muscle
buried beneath the skin – but then I’d wake up and never do it.
Come to me before I die, but come fast –
books are falling off my lap and mold is spreading
through my clothes. From my bed I scent the leaves
fallen on the paths. Autumn is here. And the room
has suddenly turned cold. And you don’t come. Now
I want to lie on the mossy carpet of the garden and hear
the earth’s heart beating in my breast. Worms feed
on the dreams of the dying. And you won’t come.

Translated by Ana Hudson with Gabriel Gbadamosi, 2012
first on:" ">


portugalščina | Margarida Vale de Gato

galopamos pelas costas dos montes no interior
da terra a comer eucaliptos a comer os entulhos de feno
a cuspir o vento a cuspir o tempo a cuspir
o tempo
o tempo que os comboios do sentido contrário engolem
do sentido contrário roubam-nos o tempo meu amor

preciso de ti que vens voando
até mim
mas voas à vela sobre o mar
e tens espaço asas por isso vogas à deriva enquanto eu
vou rastejando ao teu encontro sobre os carris faiscando
ocasionalmente e escrevo para ti meu amor
a enganar a tua ausência a claustrofobia de cortinas
cor de mostarda tu caminhas sobre a água e agora
eu sei
as palavras valem menos do que os barcos

preciso de ti meu amor nesta solidão neste desamparo
de cortinas espessas que impedem o sol que me impedem
de voar e ainda assim do outro lado
o céu exibe nuvens pequeninas carneirinhos a trotar
a trotar sobre searas de aveia e trigais aqui não há
comemos eucaliptos eucaliptos e igrejas caiadas
debruçadas sobre os apeadeiros igrejas caiadas
meu amor
eu fumo um cigarro entre duas paragens leio
o Lobo Antunes e penso as pessoas são tristes as
as pessoas são tão tristes as pessoas são patéticas meu
amor ainda bem que tu me escondes do mundo me escondes
dos sorrisos condescendentes do mundo da comiseração
do mundo
à noite no teu corpo meu amor eu
também sou um barco sentada sobre o teu ventre
sou um mastro

preciso de ti meu amor estou cansada dói-me
em volta dos olhos tenho vontade de chorar mesmo assim
desejo-te mas antes antes de me tocares de dizeres quero-te
meu amor hás-de deixar-me dormir cem anos
depois de cem anos voltaremos a ser barcos
eu estou só
Portugal nunca mais acaba comemos eucaliptos
eucaliptos intermináveis longos e verdes
comemos eucaliptos entremeados de arbustos
comemos eucaliptos a dor da tua ausência meu amor
comemos este calor e os caminhos de ferro e a angústia
a deflagrar combustão no livro do Lobo Antunes
comemos eucaliptos e Portugal nunca mais acaba Portugal
é enorme eu preciso de ti e em sentido contrário roubam-nos
o tempo roubam-nos o tempo meu amor tempo
o tempo para sermos barcos e atravessar paredes dentro dos quartos

meu amor para sermos barcos à noite
à noite a soprar docemente sobre as velas acesas


© Margarida Vale de Gato
from: Mulher ao Mar
Lisboa: Mariposa Azual, 2010
Audio production: Casa Fernando Pessoa /RDP



we ride down the backs of hills inside
the earth eating eucalyptus eating haystacks
spitting out the wind spitting out time spitting out
time the trains gulp the opposite way going
the opposite way stealing our time my love

I need you who are flying
to me
but you fly unfurling sails over the sea
you have wing-space you hover you drift while I
keep crawling towards you along the rails
with occasional sparks I write to you my love
cheating your absence the claustrophobia of the mustard
coloured curtains you walk on water and now
I know
words are less worthy than boats

I need you my love in this loneliness this forsakenness
of thick curtains preventing the sun preventing my
flight and nevertheless on the opposite side
the sky boasts little lamb clouds hopping
hopping on oats and wheat fields there are none here
we eat eucalyptus eucalyptus and whitewashed churches
leaning over level-crossing whitewashed churches
my love
I smoke a cigarette in between two stops I read
Lobo Antunes I think people are sad people
are so sad people are pathetic my
love just as well you hide me from the world you hide
me from the world’s patronising smiles the world’s
self-righteous consent
by night on your loins my love I
am also a boat sitting on top of your body
I am a mast

I need you my love I am tired I ache
close to where my eyes are set I feel like crying still I
desire you but before before you touch me before you say
I want you my love you shall let me sleep a hundred years
a hundred years from today we’ll be boats again
I am lonely
Portugal is everlasting we eat eucalyptus
everlasting eucalyptus lean and green
we eat eucalyptus interspersed with shrubs
we eat eucalyptus the ache of your absence my love
we eat this heat and the railtracks and anguish
set ablaze inside Lobo Antunes’ novel
we eat eucalyptus and Portugal is everlasting Portugal
is huge and I need you and in the opposite way they are stealing
time it’s our time they are stealing my love it’s time
time for us to be boats and sail through walls inside rooms

my love to be boats at night
at night to blow oh sweetly blow into full sail


Translation by Margarida Vale de Gato and Ana Hudson, 2010
first on:" ">

Chá vermelho-ferro

portugalščina | Ana Marques Gastão

Fosse teu corpo um bule, exuberante
e esguio, de rosto oculto e mãos
como hastes a vermelho-ferro,
e de tua boca se soltasse um vento
sem tecto que de fumo desenhasse
um jardim de úberes silvos,
tornar-me-ia eu num Tu em meu
nada de alto colo e formato fruto,
asa em ansa, moldada em chama
por ti ateada, ferina e triangular.

Fosse teu corpo porcelana brava
como o sinto, leve, branco-vidrado,
aplanado de ausência e composto
em passos de bico amarelo pálido
ou beringela, nele beberia o chá
de tampa inventada num ápice de
botão, minúsculos ambos, um esfriado
de cerâmica e espanto, o outro quente
de púrpura de Cassius – recomeçando os
dois a moldar o pomo em forma de crista.

© Dom Quixote
from: Adornos
Lisboa: Dom Quixote, 2011
Audio production: Casa Fernando Pessoa /RDP

Iron-red tea


Were your body a teapot, sleek
and slender, face unseen
and hands like iron-red stems,
were your mouth to release a roofless
wind drawing up with smoke
a lush hissing garden,
I would myself become a You in my
high gorged, fruit-shaped nothingness,
eager handled, forged in the flame  
you kindled, untamed and triangular.

Were your body raw porcelain
as I touch it, light, white-glazed,
smoothed to absence, and rendered
pale yellow or aubergine
in fine point, there I’d drink the tea
sprung of the suddenly budding
lid, both sipped, one cooled off
in ceramic and wonder, the other warm
from the purple of Cassius - as they begin
again to mould the crest-shaped pommel.

Translated by Ana Hudson, 2010

«Sê lenha»

portugalščina | Ana Marques Gastão

Enquanto a faca corta o alimento,
a boca atrasa o corte, o paladar,
a sorte, a criança devora o que tens
e a vontade pede-te: «sê lenha».
Anda, suporta teu corpo de ferida
cicatriz ou nome, és esqueleto bravio
carne e voragem, sino que ressoa,
te ensurdece e desmorona.

Do mar, a terra, da terra a água,
do fogo, o ar, só é exterior o interior
que se evapora em solução iodada
e te abafa no fumo metálico e molda
uma sombra, o ombro, a mão. Mas olha,
vê, escuta o som impaciente da lenha
afundada no sal, conta a história,
repete a única história que te faz viver.

© Dom Quixote
from: Adornos
Lisboa: Dom Quixote, 2011
Audio production: Casa Fernando Pessoa /RDP

«Be firewood»


While the knife cuts the food
the mouth delays the cut, the taste,
the chance, the child devours what you’ve got
and your will demands: ‘be firewood’.
Go on, carry your body with wound
scar or name, you are wild bone
flesh and hunger, a tolling bell
that deafens and flattens you.

From the sea, the earth, from the earth the water,
from the fire, the air, only the internal is external
dissolving into an iodine solution,
stifling you in the metallic smoke and shaping
a shadow, the shoulder, the hand. But look,
see, listen to the impatient sound of the firewood
sunk into salt, tell the story,
tell again the only story that makes you live.

Translated by Ana Hudson, 2010


portugalščina | Ana Marques Gastão

Por uma vez conta como o corpo se ajusta à superfície
das tuas palavras. Fala de um depois anterior, desse sono
demente na fissura da luz; do violento voo ou ferida
cíclica, a ausência excedendo-se na pele quando a desoras
perfumas minhas mãos. Estende-se o calor aos lábios,
o verão simula a duração no verso, circula a água, vigorosa,
no fundo do poço até desaparecer na cama muda.
Nada é o que parece, lembra-se o que se esquece e eu digo
os dedos descalços dissolvem em tua boca o mel à flor dos
destroços. Olha-me: deita o olhar em meu vestido, tira-o
num gesto ébrio e precipitado como a um prisioneiro,
os peixes sobem lestos no lago imoderado e a noite volta,
lenta, adormecida. Dou-te o que não tenho – a história
de um rio exultante a explodir na boca em versão romântica,
poema sem trágicos sulcos ou fala completa. E tu, tu dás-me
o que sou: metáfora doendo-se alto onde acaba o texto.

© Gótica
from: Nós/Nudos, 25 poemas sobre 25 obras de Paula Rego
Lisboa: Gótica, 2004
Audio production: Casa Fernando Pessoa /RDP



For once say how your body adjusts to the surface
of your words. Speak a previous afterwards, the demented
sleep in the gash of light; the violent flight or cyclical
wound, intemperate absence over my skin when
your scent lingers untimely in my hands. Warmth spreads to the lips,
summer plays the length of the verse, forceful,
water whirls at the bottom of the well till it vanishes into the mute bed.
Nothing is what it seems, we remember that which we forget and I tell
from the bare fingers dissolving in your mouth the honey on the shattered
flower tips. Look at me: lie your gaze upon my dress, pull
it off in a rash, inebriate gesture like a prisoner’s deliverance;
the fish quickly rise in the immoderate lake and night returns,
slow, in deep sleep. I give you what I do not have - the story
of an exulting river exploding in the mouth in romantic fiction,
a poem with no tragic tearing or complete language. And you, you
give me what I am: a metaphor aching aloud where the text ends.

Translated by Ana Hudson, 2010


portugalščina | Filipa Leal

Pensava que os livros não têm peso. Quero dizer, flutuam no entendimento.
Na memória. Ou melhor: equilibram-se porque não são gente.
Não têm noites, não têm insónias. Não têm sono lá dentro.

Pensava que os livros são menos complexos do que nós. Mesmo quando
não temos linha, quando não temos palavra. Mesmo quando
não conseguimos respirar. Quando pensei nisso,
tive uma vaga noção de título.

E um hálito branco a querer ser página.

© Deriva Editoras
from: O Problema de Ser Norte
Porto: Deriva Editoras, 2008
Audio production: Câmara Municipal de Lisboa



I was thinking books are weightless.  I mean, they float upon the understanding.
Upon memory.  Or even better: they are steady because they are not people.
They have no nights, no insomnia.  They have no sleep in them.

I was thinking books are less complicated than us.  Even when
we run out of a line, of a word.  Even when
we can’t quite breathe.  When I thought about that
I had a vague notion of entitlement.

And a pale breath wishing to be a page.

© Translated by Ana Hudson, 2011

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portugalščina | Filipa Leal

A cidade movia-se como um barco. Não. Talvez o chão se abrisse em algum
lado. Não. Era a tontura. A despedida. Não. A cidade talvez fosse de água.
Como sobreviver a uma cidade líquida?
(Eu tentava sustentar-me como um barco.)
As aves molhavam-se contra as torres. Tudo evaporava: os sinos, os relógios,
os gatos, o solo. Apodreciam os cabelos, o olhar. Havia peixes imóveis na
soleira das portas. Sólidos mastros que seguravam as paredes das coisas. Os
marinheiros invadiam as tabernas. Riam alto do alto dos navios. Rompiam a
entrada dos lugares. As pessoas pescavam dentro de casa. Dormiam em
plataformas finíssimas, como jangadas. A náusea e o frio arroxeavam-lhes os
lábios. Não viam. Amavam depressa ao entardecer. Era o medo da morte. A
cidade parecia de cristal. Movia-se com as marés. Era um espelho de outras
cidades costeiras. Quando se aproximava, inundava os edifícios, as ruas.
Acrescentava-se ao mundo. Naufragava-o. Os habitantes que a viam
aproximar-se ficavam perplexos a olhá-la, a olhar-se. Morriam de vaidade e
de falta de ar. Os que eram arrastados agarravam-se ao que restava do interior
das casas. Sentiam-se culpados. Temiam o castigo. Tantas vezes desejaram
soltar as cordas da cidade. Agora partiam com ela dentro de uma cidade
(Eu ficara exactamente no lugar de onde saiu.)

© Deriva Editoras
from: A Cidade Líquida e Outras Texturas
Porto: Deriva Editoras, 2006
Audio production: Câmara Municipal de Lisboa



The city rocked like a boat. No. Perhaps the ground would crack open somewhere. No. It was the giddiness. It was the departure. No. Perhaps the city was made of water. How to survive a liquid city?
(I tried to steady myself like a boat.)
The birds became wet against the towers. Everything was evaporating: the bells, clocks, cats, ground. Hair and gazes were rotting. Fish stood still on the doorsteps. Solid masts held the walls of things. The sailors invaded the taverns. They laughed loudly from up high in the ships. They burst in to places. People went fishing at home. They slept on the flimsiest surfaces, like rafts. Nausea and cold purpled their lips. They couldn’t see. They made love quickly in the late afternoon. It was the fear of death. The city seemed like crystal. It moved with the tides. It was a mirror of other coastal cities. As it drew closer, it flooded the buildings, the streets. It added itself to the world. It shipwrecked itself. The dwellers who could see it approaching stared at it, at each other, perplexed. They were dying of vanity and lack of air. The ones who were being dragged away held on to what was left inside the houses. They felt guilty. They feared punishment. They had so often wished to untie the city’s ropes. Now they were going with it, inside a liquid city.
(I had remained in the exact spot from which it left).

© Translated by Ana Hudson, 2011

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portugalščina | Filipa Leal

E ali estava - nós a atravessarmos de barco
a alegria: o pai ainda de bigode, de chapéu castanho,
a mãe de óculos e écharpe, a Marta que em breve seria mãe também
mas não sabia que transportava no útero mais um passageiro,
o Miguel, pequenino e corajoso, sempre a tentar que os pés não doessem
de tantas avenidas, e o João Pedro, tão recém-casado, tão recém-feliz,
tão quase pai também sem o saber;
nós ao sol, de costas para ela, de frente uns para os outros, pressentindo
que Nova Iorque só interessaria por ali termos estado muito juntos,
e que na passagem dos anos apenas isso importaria, apenas isso:
termos ali estado distraídos, sentadíssimos, confortáveis
como os nossos corações.

E de repente ali estava ela a imitar os montes, de um verde indecifrável,
ali estava a imitar os homens invadidos, pesada, com picos na cabeça,
de braço esticado a tentar a luz, de livro pendurado,
ali estava séria, muda, quieta,
toda feita de pausa como um susto, como se jogássemos mímica,
como se a seguir nos pregasse uma partida, um grito,
e desfizesse a pose e risse de boca muito aberta à brincadeira,
livre então dos curiosos que empunhavam câmaras como se vê-la
assim, parada e incapaz, fosse espectáculo digno de registo.

Nós a chegarmos à ilha, a desembarcarmos do alheamento,
nós do tamanho familiar, todos de cabeça ao alto na inacessível sombra,
nós a rirmos das pessoas que lhe descobríamos na cabeça,
eles literalmente à varanda da cabeça, os visitantes,
ignorando que um futuro dia de Setembro inibiria aquela subida aos céus.

E ali estava ela de nariz empinado, recusando o gesto de anfitriã:

alta e ofendida
que era preciso limpar.

magazine “Egoísta”,
Audio production: Câmara Municipal de Lisboa



And there she was – we, crossing through joy
by boat: father still in a moustache, brown hat,
mother wearing glasses and a scarf, Marta, who’d soon be a mother
but didn’t yet know she was stowing away another passenger in her uterus,
Miguel, small and brave, always trying not to feel his feet hurting
from so many Avenues, and João Pedro, so newly-married, so newly-happy,
so almost a father without knowing it;
we, in the sun, our back to her, facing each other, sensing
New York would only matter because we’d been there together,
and in years to come only this would matter, only this:
having all been there, oblivious, settled in, comfortable
in our own hearts.

And suddenly there she was imitating the hills, an inscrutable green,
there she was mimicking defeated men, heavy, spikes on her head,
arm stretched out attempting to light, a book hanging,
there she was serious, mute, still,
all made of suspended fright, as if playing charades,
as if she would soon trick us, shout out,
her pose undone, her mouth open, laughing loudly ready to have fun,
free from the curiosity of those holding cameras as if seeing her
still and helpless were a spectacle worth registering.

We, arriving on the island, landing out of our absent-mindedness,
we, in our family size, holding our heads high in the unreachable shade,
we, laughing at the people we discovered in her head,
literally at the balcony of her head, those punters,
ignorant that a future September day would inhibit this ascent into heaven.

And there she was, full of herself, refusing to play host:

a tall, offended
in need of a clean-up.

© Translated by Ana Hudson, 2011

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portugalščina | Filipa Leal

Nos dias tristes não se fala de aves.
Liga-se aos amigos e eles não estão
e depois pede-se lume na rua
como quem pede um coração
novinho em folha.

Nos dias tristes é Inverno
e anda-se ao frio de cigarro na mão
a queimar o vento e diz-se
- bom dia!
às pessoas que passam
depois de já terem passado
e de não termos reparado nisso.

Nos dias tristes fala-se sozinho
e há sempre uma ave que pousa
no cimo das coisas
em vez de nos pousar no coração
e não fala connosco.

© Deriva Editoras
from: A Cidade Líquida e Outras Texturas
Porto: Deriva Editoras, 2006
Audio production: Câmara Municipal de Lisboa

On sad days you don’t mention birds


On sad days you don’t mention birds.
You ring up friends and they’re out
and then on the street
you ask for a light as if asking
for a brand new heart.

On sad days it’s winter
and you wander off in the cold, cigarette in hand,
burning away the wind and you say
 – good morning!
to the passers-by
after they’ve passed by
and you failed to notice.

On sad days you talk to yourself
and there’s always a bird sitting
at the top of things
instead of landing on your heart
and it doesn’t speak to you

© Translated by Ana Hudson, 2011

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[Hoje, também os carros dançam.]

portugalščina | Filipa Leal

Hoje, também os carros dançam. As casas movem-se levemente. E eu – que
mudei de casa e de roupa, de cidade e de cama, de palavras... Eu, que mudei
de música e de carro, de saudade, de quarto... Eu – que mudei de computador
e de rua, de eternidade e de paisagem, de abraço e de clima... Eu – que mudei
de língua e de lágrimas, de deus e de caderno, de crenças e de céu... Eu – que
mudei de lume, que mudei de medos... Eu – que mudei de planos, de lençóis,
de secretária... Eu – que mudei de óculos e de rumo, de amigos, de champô,
de rituais e de supermercado... Eu – que mudei de tudo que em quase nada
mudou, mudei de dentro de mim para dentro de ti, meu amor.

© Cadernos do Campo Alegre
from: Talvez os Lírios Compreendam
Porto: Cadernos do Campo Alegre,
Audio production: Câmara Municipal de Lisboa

[Today, the cars, too, are dancing]


Today, the cars, too, are dancing. The houses are moving gently. And I – who moved house, changed clothes, city and bed, words... I, who changed my music and my car, my longing, bedroom... I – who changed computer and street, landscape and eternity, climate and embrace... I – who changed tears and language, god and notebook, beliefs and sky... I – who changed flame, fears... I – who changed plans, bedsheets, desk... I – who changed my glasses and direction, friends, shampoo, rituals and supermarket... I – who changed everything which changed almost nothing, moved from inside of me to inside of you, my love.

© Translated by Ana Hudson, 2011

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[podes levar os dias que trouxeste]

portugalščina | Pedro Sena-Lino

podes levar os dias que trouxeste
os pássaros soterraram agosto
e sem lugar um homem cega pela janela
o mar que jura ter tocado com o sangue

podia ter sido o amor se não tivesse vindo
tão directamente da sede
um duplo rosto de enganos e os braços
que saíram desertos
o eco da morte reverbera na pele
com que vejo a tua ausência encher as ruas
um choro de papel cai pela terra
e nunca foi tão tarde ser depois

daqui onde o grito surdo incendeia
a refutação da madrugada
donde o crânio esmaga o coração
um homem corta pela janela
a própria certeza de ter sido

não   é tarde demais para uma manhã
que foi a enterrar em tantas noites

as escadas morreram de sede
a terra caiu em nunca

podes levar os dias que trouxeste

© Pedro Sena Lino
from: zona de perda – livro de albas
Objecto Cardíaco, 2006
Audio production: Literaturwerkstatt Berlin 2008

[you can take back the days...]


you can take back the days you brought
birds buried august
and a rootless man through the window
blinds the sea he swears to have touched with blood

it could have been love if it hadn’t come
so straight from thirst
a double faced mistrust and arms
turned to deserts
the echo of death resounds in the skin
that makes me see your absence filling the streets
paper tears fall to the ground
and belatedness was never so late

from here where the deaf scream sets
alight the refusal of dawn
from where the skull crushes the heart
a man cuts through the window
his own certainty of having been

it’s not too late for a morning
that was buried in so many nights

the stairs died of thirst
the ground fell into never

you can take back the days you brought

© Translation by Ana Hudson, 2010
Published with permission of 'Poems from the Portuguese' website

[é evidente que podemos explicar.]

portugalščina | Gonçalo M. Tavares

é evidente que podemos explicar.
é evidente que podemos concluir.
é evidente que podemos curar.
é evidente que podemos abrir 1 consultório e dizer: PAGA!
é evidente que podemos psicanalizar.
é evidente que podemos ter componentes.
é evidente que podemos começar pelo início.
é evidente que podemos ter emoção e razão e céu em cima e terra por baixo.
é evidente que podemos comer e não dar por isso, defecar e não dar por isso,
fornicar e fecundar e não dar por isso.
é evidente que podemos Regressar.
é evidente que podemos enumerar e dar os nomes certos às coisas erradas.
é evidente que podemos acertar.
é evidente que podemos ter 1 corpo sem falhas excepto a Falha Grande que é
MORRER e as outras falhas pequenas que são a dor a doença e a velhice.
é evidente que podemos fixar, explicar, concluir, exemplificar, começar, abrir
1 consultório, curar, receber e pagar, estruturar, desenvolver, ter ideias claras
e ideias claras,
é evidente que podemos pensar, dançar e depois pensar ou então o contrário
é evidente, enfim, de novo, insisto, que podemos explicar,
mas é melhor não.

© Gonçalo M. Tavares
from: Livro da Dança
Assírio & Alvim, Nove
Audio production: Casa Fernando Pessoa, Lisboa 2004

[it’s evident we can explain:]


it’s evident we can explain.
it’s evident we can conclude.
it’s evident we can cure
it’s evident we can open 1 practice and say: PAY!
it’s evident we can psychoanalyse.
it’s evident we can have components.
it’s evident we can start at the beginning.
it’s evident we can be right and have emotion and sky above and earth below.
it’s evident we can eat and not notice, defecate and not notice,
fornicate and fecund and not notice.
it’s evident we can Come Back.
it’s evident we can enumerate and give the right names to the wrong things.
it’s evident we can get it right.
it’s evident we can have an unfailing body, except for the Great Failure which is TO DIE and all the other small failures like pain, disease and old age.
it’s evident we can fix, explain, conclude, exemplify, begin,
1 practice, cure, receive and pay, structure, develop, have clear ideas
and clear ideas, it’s evident we can think, dance and then think or the other way round
it’s evident, at last, again, I insist, that we can explain,
but it’s better not.

Translated by Ana Hudson

[a mulher tem a química dos animais...]

portugalščina | Gonçalo M. Tavares

a mulher tem a química dos animais e o pólen das plantas,
e da Grande Alma rouba o Apetite para multiplicar as coisas que nascem.
Os contágios são calmos.
Se uma flor voasse perdia o cheiro;
e se o pássaro tivesse aroma de rosa, de certeza seria coxo.
Porque o mundo se organizou todo de uma vez e depois calou-se.
Ficámos nós, sós, e a Filosofia.
A pedra calada, o animal grunhe,
a erva cresce tão lenta que só a vemos quando ela é adulta,
e os cães ladram debaixo do Sol.
Todos somos resíduos imperfeitos
e os organizadores do Baile saíram logo no início,
deixando a Música, mas não os passos.
Por isso tropeçamos,
partimos a unha má e boa,
apaixonamo-nos por uma mulher e depois já é outra,
e, no Fundo, o que queríamos era sossego e não dançar.
Do que temos medo é da solidão, temos de o reconhecer,
esse caixão que vem antes do tempo,
e nos fecha dos outros e do dia.
O que queremos é sossego;
nem Mistérios nem passos de dança,
apaguem a Música.

© Gonçalo M. Tavares
from: Investigações. Novalis
Editora Difel, (Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores),
Audio production: Casa Fernando Pessoa, Lisboa 2004

[the woman has the chemistry of animals]


the woman has the chemistry of animals and the pollen of plants,
and she steals from the Great Soul its Appetite in order to multiply things that are born.
Infection is calm.
If a flower could fly it would lose its scent;
and if a bird could smell like a rose, it would surely be lame.
Because the world worked itself out all at once and then became silent.
We were left, alone, us and Philosophy.
The stone is silent, the animal grunts,
the grass grows so slow that we only see it when it comes of age,
and the dogs bark under the Sun.
We  are all imperfect residues
and the ball organisers exited right at the beginning,
leaving behind the Music, but not the steps.
That’s why we stumble,
we brake the bad nail and the good one,
we fall in love with a woman and she’s already another,
and, Deep down, what we wanted was peace and not dance.
What we fear is loneliness, let’s face it,
that coffin arriving before it’s time,
shutting us from the other and from the light.
What we want is peace;
no Mysteries or dancing steps,
turn off the Music.

Translated by Ana Hudson


portugalščina | Ana Luisa Amaral

Tenho uma flor
de que não sei o nome
Na varanda,
em perfume comum
de outros aromas:
hibisco, uma roseira,
um pé de lúcia-lima
Mas esses são prodígios
para outra manhã:
é que esta flor
gerou folhas de verde
minúsculas e leves
Não a ameaçam bombas
nem românticos ventos,
nem mísseis, ou tornados,
nem ela sabe, embora esteja perto,
do sal em desavesso
que o mar traz
E o céu azul de Outono
a fingir Verão
é, para ela, bênção,
como a pequena água
que lhe dou
Deve ser isto
uma espécie da paz:
um segredo botânico
de luz

© Ana Luisa Amaral
from: Entre Dois Rios e Outras Noites
Campo das Letras, 2007
Audio production: Literaturwerkstatt Berlin 2008

Botanics of peace: visitation


I have a flower
whose name I don’t know
On the balcony,
its scent blends
with other smells:
hibiscus, rose,
a sprig of verbena
But they will be prodigies
of another morning:
for this flower
has bred leaves of astonishing
minute and subtle
Bombs do not threaten it
nor do romantic winds,
missiles, nor tornados,
neither does it know, although so near,
of the jeopardy the salt
sea air will bring
And the blue autumn sky
disguised as summer
gives it such blessing,
as does the little water that I pour
And this must be
a sort of peace:
a botanical secret
of light

© Translation by Ana Hudson, 2010
Published with permission of 'Poems from the Portuguese' website


portugalščina | Ana Luisa Amaral

Lembras-te de dizer que a vida era uma fila?
Eras pequena e o cabelo mais claro,
mas os olhos iguais. Na metáfora dada
pela infância, perguntavas do espanto
da morte e do nascer, e de quem se seguia
e porque se seguia, ou da total ausência
de razão nessa cadeia em sonho de novelo.

Hoje, nesta noite tão quente rompendo-se
de junho, o teu cabelo claro mais escuro,
queria contar-te que a vida é também isso:
uma fila no espaço, uma fila no tempo,
e que o teu tempo ao meu se seguirá.

Num estilo que gostava, esse de um homem
que um dia lembrou Goya numa carta a seus
filhos, queria dizer-te que a vida é também
isto: uma espingarda às vezes carregada
(como dizia uma mulher sozinha, mas grande
de jardim). Mostrar-te leite-creme, deixar-te
testamentos, falar-te de tigelas — é sempre
olhar-te amor. Mas é também desordenar-te à
vida, entrincheirar-te, e a mim, em fila descontínua
de mentiras, em carinho de verso.

E o que queria dizer-te é dos nexos da vida,
de quem a habita para além do ar.
E que o respeito inteiro e infinito
não precisa de vir depois do amor.
Nem antes. Que as filas só são úteis
como formas de olhar, maneiras de ordenar

o nosso espanto, mas que é possível pontos
paralelos, espelhos e não janelas.
E que tudo está bem e é bom: fila ou
novelo, duas cabeças tais num corpo só,
ou um dragão sem fogo, ou unicórnio

ameaçando chamas muito vivas.
Como o cabelo claro que tinhas nessa altura
se transformou castanho, ainda claro,
e a metáfora feita pela infância
se revelou tão boa no poema. Se revela
tão útil para falar da vida, essa que,
sem tigelas, intactas ou partidas, continua
a ser boa, mesmo que em dissonância de novelo.

Não sei que te dirão num futuro mais perto,
se quem assim habita os espaços das vidas
tem olhos de gigante ou chifres monstruosos.
Porque te amo, queria-te um antídoto
igual a elixir, que te fizesse grande
de repente, voando, como fada, sobre a fila.
Mas por te amar, não posso fazer isso,
e nesta noite quente a rasgar junho,
quero dizer-te da fila e do novelo
e das formas de amar todas diversas,
mas feitas de pequenos sons de espanto,
se o justo e o humano aí se abraçam.

A vida, minha filha, pode ser
de metáfora outra: uma língua de fogo;
uma camisa branca da cor do pesadelo.
Mas também esse bolbo que me deste,
e que agora floriu, passado um ano.
Porque houve terra, alguma água leve,
e uma varanda a libertar-lhe os passos.

© Ana Luisa Amaral
from: Imagias
Audio production: Literaturwerkstatt Berlin 2008

Only a bit of Goya: letter to my daughter


Do you remember saying life was like queuing up?
You were little, your hair lighter,
same eyes, though.  In the metaphor given
to you by childhood, you thought of
life and death, of who would come next
and why, and about the total absence
of reason in that wool-thread, bundled dream.

Tonight, a warm night bursting
into june, your hair darker,
I want to tell you that life, too, is
a line in space, a line in time,
and that your place is coming after mine.
In the manner of a man who once
remembered Goya in a letter to his children,
I’d like to tell you that life is also
this: a gun that is sometimes loaded
(as was said by a lone woman who greatly
gardened). Making crème brûlée, writing
last will and testaments, or speaking of bowls of batter – that’s
loving  you, for sure.  But it is also some disconnection
from life, your entrenchment, and mine, in a fake,
discontinuous and endearing line.

And I want to tell you of the bonds in life,
of its inhabitants beyond the air.
To tell you also that respect, whole and infinite,
does not necessarily come after love.
Nor before. That the lines are only useful
as a manner of seeing, as a way of ordering

our astonishment, and that parallel points
are possible, mirrors and not windows.
And that all that is well is good: line
or bundle, two such heads in one body,
a fireless dragon, or a unicorn

that threatens very lively flames.
Like the light hair you once had
which grew darker, but still is light,
and like the way your childhood metaphor
fitted the poem, revealing

itself so handy for talking about life, the life,
without the batter bowls, broken or intact, which is
still good, even if in a dissonant bundle.

I don’t know what in a nearer future you’ll be told,
whether whoever will inhabit such life spaces
will be giant eyed or monster horned.
Because I love you, I’d want you as an antidote,
an elixir, that would make you grow up
all of a sudden, flying, fairy like, over the line.
But because I love you, I will not.
And on this warm night bursting into june,
I’ll tell you of the bundle and the line
and of all the different ways of love,
made of small astonished sounds, when what is
just and human in there is intertwined.

Life, my daughter, can be yet
another metaphor: a tongue of fire;
the white nightmare of a shirt.
But it can also be this bulb you gave me,
in blossom now, a year past.
For it had earth and water softness
and a balcony to freely walk.

Translation into English by Ana Hudson


portugalščina | Ana Luisa Amaral

Reaprender o mundo
em prisma novo:
pequena bátega de sol a resolver-se
em cisne,
sereia harmonizando o universo

Só o vento sucumbe
à demais luz,
e só o vento,
como alaúde azul,
repete devagar os mesmos sons:

Não interessa onde estou,
não me faz falta um mapa
de viagem

Os teus dedos traçaram
ligeiríssima rota no meu corpo
e a curva topográfica
sem tempo
aí ficou, como sorriso, ou foz
de um rio sem nome

Não interessa onde estou:
esta linha de abetos ou pinheiros
que em declive se estende, branda,
leve, e se debruça em mar,
pode ser tudo

Pode mesmo ir buscar o cisne
ao verso acima
e colocá-lo aqui, sobre este verso,
ou desorganizar um terço
da sereia e transformá-la
em ilha resumida
de uma paz qualquer

Não interessa onde

Diz-se que os gregos
tinham cinco formas para falar
de amor.
Nós temos uma só, onde não cabe
o quase paradoxo
de que amor é tudo o que dele sabemos.
Nada mais
Era bom ter no verso
as formas todas, essas palavras todas
sempre à mão: pequeno dicionário
que soubesse de paisagens
de dentro

Não resistir ao tempo

Não sei se os gregos tinham várias
formas para falar da morte,
nem mesmo sei se o amor
foi buscar alguma dessas formas
para se definir

Há literatura que fala do que está
a montante do amor,
mas não lhe está — eros, tanatos,
a sua ligação, o seu estar-entre-

Mas tudo o que se sabe
repete-se em trajecto de sereia,
enigma de sereia
transmutada em cisne

Diz-se que só na morte
o cisne canta.
Mas é preciso organizar o vento
de forma a que o seu passo
seja mais que azul

Peço ao vento algum som,
alguma imagem
que seja tão brilhante e deslumbrada
como estas que aqui estão
à minha frente

Mas não responde o vento,
implausível que é o seu falar

A rota que traçaste permanece,
embora, e o corpo

reconhece-lhe o toque
desses dedos

Onde fica o que está descrito
em verso
no meio de tudo isto?

Onde se escondem as palavras
Sei que preciso de uma forma nova,
que precisava de palavra nova
para a moldura, ou cor

Era essa aprendizagem
de um olhar
que me faltava agora

— sobra somente o sol
iluminando o sítio onde é inútil
o mapa de viagem
Tudo o resto: inventado
há mais de três mil anos,
por entre templos, degraus onde, sentados:
discípulos de ausente obediência

Recorro ao alaúde,
— mas só o verso fala
e me responde

Traços rimados, círculos
em fogo, fragmentos com que inundam
as palavras já escritas

Colo nelas o selo deste mar
e sonho que são estas as palavras.
Nesta manhã de sol,
olho-as assim,
sabendo-as de algum tempo,
quase templos sagrados em que pinto

o dia a cores,
que nem herdadas de mil gerações
Numa tradição nula de viagem,
são o único ponto
a resistir

Tudo o resto: invenção
mais que plasmada,
multiplicados séculos
por cem

Mais de quatro mil anos
sobre o tempo novo,
e nada novo abaixo
deste sol

Talvez só este
Interrompo no mapa

o precipício?

No traço dos teus dedos,
rota onde quase cabem: sereia,
o alaúde, o tempo,
nessa rota
— o suspendo

© Ana Luisa Amaral
from: A Génese do Amor
Audio production: Literaturwerkstatt Berlin 2008

Topographies almost as a dictionary


Re-learn the world
brief burst of sun revealed
in a swan,
a mermaid harmonising the universe
Only the wind succumbs
to the excess of light,
and only the wind,
a lute in blue,
slowly repeats the same sound:
It doesn't matter where I am
I don't need a traveller's
Your fingers marked
the subtlest route over my body
and their timeless
topographic curve
stayed there, like a smile, or the mouth
of a nameless river
It doesn't matter where I am:
this line of firs or pine trees
sloping softly,
lightly, towards the sea,
can be everything
It can even bring the swan
from the line above
and place it here, on this one,
or disorganise one third
of the mermaid and turn her
into an island infused
with whatever peace
It doesn't matter where
I am
They say the Greeks
knew five ways to talk
of love.
We only know one, which cannot contain
the near paradox
of love being all we know of love
and nothing else
It would be good to have, in the verse,
all those ways, all those words
close at hand: a brief dictionary
that might know all inner
Not to resist time
I don’t know if the Greeks had several
ways to talk of death,
or even if love
has borrowed some of those ways
for its self-definition
There is literature that speaks of what is
upstream from love,
but it's not - eros, thanatos,
their connection, their being-between-
But all that is known
is repeated in the path of the mermaid,
her enigma
transfigured into the swan
They say the swan only sings
when it's dying.
But we need to organise the wind
so as to paint its speed
in a deeper blue
I ask the wind for a sound
an image
as bright and dazzled
as the ones I have
in front of me
No answer from the wind though,
implausible that it should speak
The route you marked remains,
however, and my body
recognises the touch
of your fingers
Where is that which is depicted
in verse,
in the midst of all this?
Where are all the words
I know I need a new way,
a new word
for the frame, or the colour
learning through  
seeing is
what I'm missing now
- only the sun is left,
shedding light on the very spot
where a traveller's map is useless
All else: invented
more than three thousand years
ago, among temples and stairways where
disobedient disciples sat
I resort to the lute,
- but only the verse speaks,
answering me
Rhyming lines, fiery
circles, fragments inundating
already written words
I stamp this sea, on all of them
and dream these are the words.
In the morning of this sun,
I see them thus,
knowing them for the time they hold,
almost sacred temples where I paint
the day in colours,
inherited from a thousand generations
In tradition of no travel,
they are the only
point of resistance
Everything else: an invention,
moulded and remoulded,
centuries multiplied a hundred
More than four thousand years
into this new era,
and nothing is new under
this sun
Perhaps only this
On the map, do I disrupt
the precipice?
The trace of your fingers,
a route that nearly harbours mermaid,
lute, time,
on this route
- I suspend it

© Translation by Ana Hudson, 2009
Published with permission of 'Poems from the Portuguese' website


portugalščina | Fernando Pinto do Amaral

Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome – essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue                           
e o meu sangue à procura do teu coração.

© Fernando Pinto do Amaral
from: Às Cegas
Relógio d’Água, 1997
Audio production: Casa Fernando Pessoa/CML



Tonight I died many times over, waiting
for a sudden dream to come
and dance in the dark with my soul
as long as it were you who led
its haunted rhythm within the darkness of my body,
the spiral of all hours to be hoisted
out of the well of the senses. Who are you,
imaginary promise, who teaches me
to decode the wind’s intentions,
the rain music on the window panes
in the cold of february? Love
has offered me your absolute features,
has projected your eyes on to my sky
and now whispers a word to me:
your name - the last sound spoken
by the last dying star
soaking slowly in my blood
and my blood seeking your heart.

© Translation by Ana Hudson, 2010
Published with permission of 'Poems from the Portuguese' website

PT – Filipa Leal

portugalščina | [GR-LU-IT-EE-SE-HU-PT-GR]

Apontas para o rosto sarcástico do sol de Inverno
e disparas. Há tantos meses que não chove – reparaste?
É o próprio céu a desistir de ti. E mesmo assim tu disparas, só sabes disparar.
Estás enganada, Europa. Envelheceste mal e perdeste a humildade.
Não é contra o sarcasmo que disparas, não é contra o Inverno,
nem sequer contra o insólito, contra o desespero.
Tu disparas contra a luz.
Podes atirar-nos tudo à cara, Europa: bombas, palavras, relatórios de contas.
Podes até atirar-nos à cara um deputado, uma cimeira.
Mas os teus filhos não querem gravatas. Os teus filhos querem paz.
Os teus filhos não querem que lhes dês a sopa. Os teus filhos querem trabalhar.
Há tantos meses que não chove – reparaste?
A terra está seca. Nem abraçados à terra conseguimos dormir.
Enquanto te escrevo, tu continuas a fazer contas, Europa.
Quem deve. Quem empresta. Quem paga.
Mas os teus filhos têm fome, têm sono. Os teus filhos têm medo do escuro.
Os teus filhos precisam que lhes cantes uma canção, que os vás adormecer.
Eu acreditei em ti e tu roubaste-me o futuro e o dos meus irmãos.
Se estamos calados, Europa, é apenas porque, contrários ao teu gesto,
nós não queremos disparar.

© Filipa Leal
Audio production: @ poesiefestival berlin 2012

Portugal – Filipa Leal


You take aim at the sneering face of the winter sun
and you shoot.  It hasn’t rained in months – have you noticed?
Even the skies are giving up on you.  And yet you shoot, that’s all you do.
You’re mistaken, Europe. You’ve grown old ungraciously, you’ve unlearnt humility.
It’s not at the sneer that you shoot, not at the winter,
not even at oddity, or despair.
You shoot at the light.
You can throw anything at our faces, Europe: bombs, words, budgets.
You can even throw a member of parliament, a summit, at our faces.
But your children don’t want neckties.  Your children want peace.
Your children don’t want to be spoon fed. Your children want to work.
It hasn’t rained in months – have you noticed?
The land is dry.  Not even in her embrace can we find rest.
While I’m writing to you, Europe, you’re still into your accountancy.
Who owes. Who lends. Who pays.
But your children are hungry, tired. They feel frightened in the dark.
Your children need you to sing them a lullaby.
I trusted you and you robbed the future from me and my brothers.
If we are silent it’s because, contrary to your gesture, Europe,
we choose not to shoot.

Translation from Portuguese by Ana Hudson


portugalščina | Maria Teresa Horta

Se a língua ganha
a dimensão da escrita
E a escrita toma
a dimensão do mundo

Descer é preciso até ao fundo
na busca das raízes da saliva
que na boca vão misturar tudo

Mas há ainda a pressa do papel
que no tacto navega a brusca seda
Se a sede se disfarça sob a pele
descendo pela escrita essa vereda

E já se inventa
Ou se insinua

Se entrelaça a roca e o bordado
que as palavras tecendo
lado a lado
querem do país a alma nua

Aí podes parar
e retornar à boca
Esse espaço de beijo e de cinzel

Onde a fala retoma a língua toda
trocando a ternura
pelo fel

Um lado após o outro
a dimensão está dita
O tempo a confundir qualquer abraço
entre o visto e o escrito

Espelho e aço

Nesta fundura boa
e mar profundo

Para depois subir a pulso
O mundo

© Maria Teresa Horta
from: Inquietude
Quasi, 2006
Audio production: Casa Fernando Pessoa/CML



If language gains
the dimension of writing
and writing takes on
the dimensions of the world
We must go deep
searching saliva’s roots
in the mouth where all is mixed

And there’s still the paper’s haste
its touch steering rough silk
Even if under the skin the disguised thirst
streams through the trail of words
And already it creates
Interlaces the spindle with the stitch
as the words weave
along the line
wanting the country’s naked soul
There you can halt
and return to the mouth
That space for the kiss and the chisel

Where the voice reclaims the whole tongue
exchanging tenderness
for bile
First one side then the other
the scale is settled
Time fusing the embrace
between what is seen and written
Mirror and steel
In this pleasing depth
the sea unfolds

Then with effort lifts up
The world

in Inquietude, 2006
© Translation by Ana Hudson
Published with permission of 'Poems from the Portuguese' website


portugalščina | Maria Teresa Horta

Desassossego a paixão
espaço aberto nos meus braços
Insubordino o amor
desobedeço e desfaço

Desacerto o meu limite
incendeio o tempo todo
Vou traçando o feminino
tomo rasgo e desatino

Contrario o meu destino
digo oposto do que ouço

Evito o que me ensinaram
invento     troco     disponho
Recuso ser meu avesso
matando aquilo que sonho

Salto ao eixo da quimera
saio voando no gosto

Sou bruxa
Sou feiticeira
Sou poetisa e desato
e cuspo na fogueira

© Maria Teresa Horta
from: Inquietude
Quasi, 2006
Audio production: Casa Fernando Pessoa/CML



I unsettle all passion
open space in my arms
insubordinate love
disobey and untie

I wrong-foot my boundaries
I light fires all the time
I set forth the feminine
I take I tear I cross lines

I contradict my fate
speak what I do not hear

I avoid what I was taught
I invent I change I dispose
I refuse my inside-out
killing all that I may dream

I jump over the impossible
I fly wherever I please

I’m a witch
I’m a sorcerer
I’m an unravelling poet

I write
and spit on the flames

in: Inquietude, 2006© Translation by Ana Hudson
Published with permission of 'Poems from the Portuguese' website


portugalščina | Maria Teresa Horta

Deixo que venha
se aproxime ao de leve
pé ante pé até ao meu ouvido

Enquanto no peito o coração
e se apressa no sangue enfebrecido

Primeiro a floresta e em seguida
o bosque
mais bruma do que neve no tecido

Do poema que cresce e o papel absorve
verso a verso primeiro
em cada desabrigo

Toca então a torpeza e agacha-se
um lobo faminto e recolhido

Ele trepa de manso e logo tão voraz
que da luz é a noz
e depois o ruído

Toma ágil o caminho
e em seguida o atalho
corre em alcateia ou fugindo sozinho

Na calada da noite desloca-se e traz
consigo o luar
com vestido de arminho

Sinto-o quando chega no arrepio
da pele, na vertigem selada
do pulso recolhido

À medida que escrevo
e o entorno no sonho
o dispo sem pressa e o deito comigo

© Maria Teresa Horta
from: Inquietude
Quasi, 2006
Audio production: Casa Fernando Pessoa/CML



I let him come closer
tiptoeing up to my ear
While in my breast my heart
quickening my fevered blood
First the forest and then
the wood
more mist than snow in the texture

Of the poem that grows, the paper that absorbs
line by line at first
each unshelteredness

Vileness then strikes and
a sagacious
famished wolf crouches

Softly creeps and yet so voracious
that from the source he’s the core
and then the cracking

Lithe, agile on the path
he then takes a shortcut
runs with the pack or flees alone

In the quietness of night he brings
the moonlight
in a dress of ermine

I feel him arriving in the shudder
of my skin, in the sealed vertigo
of my gathered wrist

As I write
he flows over my dreams
I undress him slowly and lie with him

in: Inquietude, 2006© Translation by Ana Hudson
Published with permission of 'Poems from the Portuguese' website

o sol

portugalščina | Gonçalo M. Tavares

Na infância o sol era um companheiro mais alto,
Que aparecera primeiro no campo de futebol, e aí, parado,
Guardava as costas da baliza e a erva que se tornava quente.
Como se o sol fosse de facto um instrumento de cozinha,
Aperfeiçoado, antigo, mas instrumento, matéria
Que os meninos agarravam com os dedos e cuja
Intensidade podiam por vontade própria regular.
Por exemplo: quando a luz era excessiva
Os dedos protegiam os olhos. Outras vezes
O corpo parecia a conclusão
Natural, instintiva, do calor que vinha de cima:
Recebíamos o sol como o ponto final recebe
Uma frase. Fazia mais sol quando eu tinha seis anos
(quem o fazia?) ou com o tempo e o tédio
Me fui distraindo?

© Gonçalo M. Tavares
from: Autobiografia
JL, 2004
Audio production: Casa Fernando Pessoa, Lisboa 2004

the sun


In  childhood the Sun was a taller companion,
appearing first on the football pitch, and there, standing still,
it guarded the back of the nets and the grass that grew warmer.
As if the sun were in fact a cooking utensil, matter
that the kids grabbed with their fingers and whose
intensity they could regulate at will.
For instance: when the light was excessive
the fingers protected the eyes.  Other times
the body seemed like the instinctive, natural
conclusion of the heat that came from above:
A sentence.  Was there more sun when I was six
(who made it?) or have I grown more distracted
with time and tedium?

Translated by Ana Hudson

O livro

portugalščina | Gonçalo M. Tavares

De manhã, quando passei à frente da loja
o cão ladrou
e só não me atacou com raiva porque a corrente de ferro
o impediu.
Ao fim da tarde,
depois de ler em voz baixa poemas numa cadeira preguiçosa do jardim
regressei pelo mesmo caminho
e o cão não me ladrou porque estava morto,
e as moscas e o ar já haviam percebido
   a diferença entre um cadáver e o sono.
Ensinam-me a piedade e a compaixão
mas que posso fazer se tenho um corpo?
   A minha primeira imagem foi pensar em
pontapeá-lo, a ele e às moscas, e gritar:
    Continuei o caminho,
   o livro de poesia debaixo do braço.
Só mais tarde pensei, ao entrar em casa:
   não deve ser bom ter ainda a corrente
de ferro em redor do pescoço
depois de morto.
E ao sentir a minha memória lembrar-se do coração,
esbocei um sorriso, satisfeito.
   Esta alegria foi momentânea,
   olhei à volta:
tinha perdido o livro de poesia.

© Gonçalo M. Tavares
from: Hotel Parnassus
Poetry International, 2002
Audio production: Casa Fernando Pessoa, Lisboa 2004

The book


In the morning, when I went past the shop
the dog barked
and didn’t viciously attack me because its iron chain
prevented it.
In the evening,
after having read in a low voice some poems on a lazy garden chair
I came back the same way
and the dog didn’t bark because he was dead,
and the flies and the air had already gathered
the difference between a corps and sleep.
I am taught pity and compassion
but what can I do if I’ve got a body?
My first image was thinking of
kicking it plus the flies, and shout:
I won.
I kept going,
the poetry book under my arm.
Only later did I think as I got home:
it can’t be good to have still the iron
chain around your neck
after you’re dead.
And as I felt my memory remember my heart,
I attempted a smile, pleased with myself.
The joy was brief,
I looked round:
I had lost the poetry book.

Translated by Ana Hudson


portugalščina | Maria Teresa Horta

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

sem ser dor ou ser cansaço
nem o corpo que disfarço

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

nunca dizendo comigo
o amigo nos meus braços

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

recusando o que é desfeito
no interior do meu peito

© Maria Teresa Horta
from: Minha Senhora de Mim
Gótica, 1971
Audio production: Casa Fernando Pessoa/CML



With myself I disagree
oh my lady
of me
not for weariness or pain
or the body that I feign
With myself I disagree
oh my lady
of me
there is no meeting of minds
with the lover in my arms
With myself I disagree
oh my lady
of me
for I deny the unrest
in the depth of my breast

in Poesia Reunida, 2009
© Translation by Ana Hudson, 2010
Published with permission of 'Poems from the Portuguese' website


portugalščina | Gonçalo M. Tavares

Não há pedras preciosas, não há cofres,
nem tesouros enterrados para brincar aos piratas.
Ninguém conversa entre si – mudos, dirás, ou desinteressados.
Os elementos presentes têm certas cores,
uma ou outra forma, cheiro, e nada mais.
Nenhum valoriza essa extraordinária invenção do alfabeto,
nem a última novidade da engenharia.
Por estes lados a palavra cimento é
uma indelicadeza.
Não falam, isso é certo, mas talvez ouçam.
Recebem, sim: água e palavrinhas que fazem crescer
(as menos inúteis do dicionário.)
E darão algo, certamente, que o mundo foi feito assim:
de trocas inumeráveis,
mas o que dão não se sabe, apenas se sente: dão beleza.
Flores, sim, pequenas ervas circunscritas ao seu sítio
- o da maldade inconsequente –
arbustos indecisos entre crescerem mais
ou ficarem ali a olhar de perto
formigas e outras espécies pacíficas.
E depois: quatro árvores altas. Eis o jardim.
Porém, a autoridade deste não vem das árvores,
mas sim de pequenos pormenores.
Por exemplo: o homem de negócios dá a volta
para não pisar uma flor minúscula.
Chegará atrasado à reunião?

© Gonçalo M. Tavares
from: A Bicicleta de A Capital
Julho, 2004
Audio production: Casa Fernando Pessoa, Lisboa 2004



There are no precious stones, there are no safes,
nor buried treasures to play pirates.
None talks with each other – dumb, you’ll say, or uninterested.
The elements here present have certain colours,
one form or other, smell, and no more.
None of them values the extraordinary invention of the alphabet,
nor the latest novelty in engineering.
Round here the word concrete is
They don’t speak, that’s true, but they hear perhaps.
They are recipients, yes: water and sweet words that make them grow
   (the least useless  ones in the dictionary.)
And they’ll give out something, for sure, for thus the world was made:
of innumerable exchanges,
but what they give is not known, it’s only felt: they give beauty.
Yes, flowers, weeds circumscribed to their place
- the one of inconsequential meanness –
bushes undecided between growing further
or staying as they are looking closely
at ants and other friendly species.
And also: four tall trees.  Here is the garden.
However, this one’s authority doesn’t come from the trees,
but from small details.
For example: the business man goes around
not to tread on a minute flower.
Will he be late for his meeting?

Translated by Ana Hudson


portugalščina | Pedro Mexia

Nos funerais encontramos a família.
Nunca fomos tão claros
como no luto
e nas memórias anedóticas
que amenizam o morto.
          Que sangue é o teu
para que o meu se assemelhe?
Alguns velhos trazem flores
que já ofereceram nos casamentos
e entre eles decidem
que somos uma família,
conhecem os primos que não
conheço, lamentam a sorte
daqueles cuja sorte é conhecida,
são ainda mais graves
do que nós, e usam
diminutivos carinhosos.
         O meu nome far-se-á pó
com o meu corpo, pensa
uma mulher que já é viúva,
há irmãos completamente mudos
e as crianças jogam à cabra-cega.
Seguimos em cortejo
compondo as gravatas,
o vento não percebe que morreu gente.
Dez pessoas acompanham o padre,
os outros já não se lembram
das orações,
dez pessoas pensam
no que têm pela frente,
os outros acompanham o caixão.
O coveiro mais novo
          dentro de pouco tempo
enterrará o mais velho.

© Pedro Mexia
Gótica, 2000
Audio production: Casa Fernando Pessoa, Lisboa 2004



We meet the family at funerals.
We’re never as transparent
as when we mourn
and tell measured anecdotes
recalling the deceased.
What blood runs here
that mine may resemble?
Some of the old people bring the flowers
they already gave at weddings
and among them they decide
we are a family,
they know the cousins I don’t
know, regret the fate
of those whose story is known,
they are even graver
than us, and use
endearing terms.
My name will turn to dust
with my body, a widowed
woman is thinking,
there are siblings who are completely silent
and children who play blindman’s buff.
We follow the cortege
straightening our ties,
the wind can’t tell that someone has died.
Ten people keep up with the priest,
the others can no longer remember
the prayers,
ten people think about
what they are facing,
the others follow the coffin.
Soon enough
the younger will bury
the older digger.

© Translation by Ana Hudson, 2011
Published with permission of 'Poems from the Portuguese' website


portugalščina | Fernando Pinto do Amaral

Talvez na sua vida o maior estímulo
fosse a curiosidade.
Era o motor de tudo: aproximava-se
de todas as mulheres que conhecia,
mas só lhe interessavam os seus corações.

Cultivava com método essa obsessão
e tal como as crianças costumam fazer
aos brinquedos preferidos,
também ele queria vê-los por dentro,
saber ao certo como funcionavam,
desfíbrar lentamente cada esperança,
dissecar com um rigor quase científico
cada angústia ou desejo inconfessável
até saborear o gosto sempre novo
de cada uma dessas células

Após cada experiência, observava
aqueles corações já desmontados
e, por não conseguir juntar as peças
guardava-as uma a uma no seu peito.
Era um lugar seguro
e com tantos pedaços de outras vidas
na sua pulsação descompassada
podia enfim acreditar
que tinha também ele um coração.

© Fernando Pinto do Amaral
from: Pena Suspensa
Lisboa: Dom Quixote, 2004
Audio production: Casa Fernando Pessoa/CML



The greatest motivation in his life
was perhaps curiosity.
It drove him on: he approached
every woman he met,
but he was only interested in their hearts.
He methodically followed this obsession
and like a child
with its favourite toy
he also wanted to see what was inside,
find out exactly how it worked,
to shred each hope in slow motion,
dissect with almost scientific rigour
each anguish, each unavowable desire,
till he felt the ever fresh taste
in each one of those cells.
After each experiment, he observed
the dismantled hearts
and, not being able to reassemble them,
he gathered them one by one into his breast.
It was a safe place
and holding so many pieces of other lives
pulsating out of step
he could at last believe
that he also had a heart.

© Translation by Ana Hudson, 2010
Published with permission of 'Poems from the Portuguese' website

As mãos

portugalščina | Bernardo Pinto de Almeida

Onde tu pousas as mãos,
eu vou pousar as minhas. Um silêncio
faz-se pela casa, uma luz coada vem da janela
e cobre os móveis de uma poalha
doirada. Os objectos estão quietos
como nunca.

Onde tu pousas as mãos,
onde tu pousas mesmo se brevemente as mãos,
torna-se íntima a percepção que se tem de cada hora,
de cada amanhecer,
de cada exacto momento. O entardecer
é só um vasto campo que se abre,
um rumor de folhas que restolham no jardim.

Escrever é ler,
ler é escrever - eu sei isso
porque em cada sítio onde [do meu corpo] tu pousaste as tuas mãos
ficou escrito - eu vejo-o:  nítido -
sobre o mais frágil espelho dos sentidos, uma palavra que se lê
de trás para diante. Quando te deitas eu sinto-lhe o perfume,
que é o da noite que entra pela janela.

E onde tu pousas as tuas mãos faz-se um rio
de prata e de quietude mesmo nas minhas mãos
que pousam onde as tuas foram antes procurar
a quietude, procurar as tuas mãos. São exactas as tuas mãos,
são necessárias, têm dedos
que são os filamentos de gestos que descrevem na penumbra
desenhos tão perfeitos que surpreendem.

Onde tu
pousares as tuas mãos
eu quero estar.
Exactamente como a sombra
cai na sombra. A água
na água. O pão  
nas mãos.

© Bernado Pinto de Almeida
Audio production: Casa Fernando Pessoa, Lisboa 2004
The audio version is based on a former version of the poem before called 'Maturidade 2'



Where your hands rest,
mine will also rest.  Silence
fills the house, the cooled light from the window
is like a spray of golden dust.  All objects quieter
than never.

Where your hands
where your hands actually even if briefly
there lies the exact intimate
perception of each hour each early morning
each exact moment.  The afternoon that falls
is but a vast field that is revealed
in a murmur of leaves rustling in the garden.

Writing is reading
reading is writing – I know that
for on every bit where on my body your hands did rest
it is written – I can see it: clear -
 – on the most fragile mirror of the senses, a word read
from its ending.  When you lie down I can sense its scent,
the very scent of night floating in through the window.

And where you rest your hands there runs a river
of silver and quietness, even through my hands
resting where yours had before sought the quietness
seeking your hands.  They are exact
your hands, they are necessary,
their fingers, like the filaments of gestures so surprisingly outlining
in the shadow the perfect drawing.

Wherever your hands will rest
I shall stay.
As exactly as shadow
falling on shadow.  Water
on water.  Bread
in the hands.

Translated by Ana Hudson

As gavetas

portugalščina | Pedro Mexia

Não deves abrir as gavetas
fechadas: por alguma razão as trancaram,
e teres descoberto agora
a chave é um acaso que podes ignorar.
Dentro das gavetas sabes o que encontras:
mentiras. Muitas mentiras de papel,
fotografias, objectos.
Dentro das gavetas está a imperfeição
do mundo, a inalterável imperfeição,
a mágoa com que repetidamente te desiludes.
As gavetas foram sendo preenchidas
por gente tão fraca como tu
e foram fechadas por alguém mais sábio que tu.
Há um mês ou um século, não importa.

© Pedro Mexia
ed. autor, 1999
Audio production: Casa Fernando Pessoa, Lisboa 2004



You should not open closed
drawers: they were locked for a reason,
having now found
the key is a happenstance you can ignore.
You know what you’ll find inside drawers:
lies.  Many paper lies,
photographs, things.
Drawers are home to the world’s
imperfection, the unalterable imperfection,
the sorrow that repeatedly feeds your disillusion.
Drawers have always been packed
by people as weak as you
and locked by someone wiser than you.
A month ago, never mind a century.

© Translation by Ana Hudson, 2011
Published with permission of 'Poems from the Portuguese' website

O Deus da minha infância

portugalščina | Bernardo Pinto de Almeida

O Deus da minha infância
era verde
verde como um fruto
amargo como um campo extenso
alargando-se até para lá do horizonte
corria montanhas e rios
descia suave pelas colinas
detinha-se nas ervas
nos riachos
anunciava nas árvores jovens
o rebentar da primavera.

O Deus da minha infância
era loiro
como trigo sereno ondulante
cavava fundo a terra
adormecida e as cigarras
cantavam nela ao fim da tarde:
explodia vivamente
em cada sol
nascia pela manhã e velava de noite
o meu sono
a solidão tranquila
do rosto moldado na almofada.

O Deus da minha infância
era azul
estava em todo o céu como o azul
era as gotas de orvalho
sobre as folhas
o ar muito fino e respirável
que a cada hora atravessava a folhagem
os ramos muito altos
e os enaltecia de verde.

O Deus da minha infância
era breve
colhia-se na tarde
ao calor
sob as árvores generosas como frutos
e apertava-se frio contra os dentes
tornando-os rijos e brancos
passando em cada gesto
como um sinal intenso.

O Deus da minha infância
ao descer da voz
ouvida ao longe
era um cavalo de prata
junto à minha janela
era um olhar fugaz
que se voltava para a sombra
e que julgava ver nela
todo o mistério do mundo
toda a violência das tardes
toda a ordem plasmada no cosmos
muito amplo
acima de todos
de cada um de nós.

O Deus da minha infância
com os gatos que saltavam dos telhados
com os cães que adormeciam ao sol
com as crianças
que rodopiavam em rodas
em torno do pião
que rodava.

O Deus da minha infância
era pobre
escutava as vozes das lareiras
comia a broa âzima
pousava sobre a mesa de castanho velho
e detinha-se nas linhas
fundas da madeira
nos seus nós escurecidos:
assomava às janelas
de vidro barato
coalhadas da humidade
descia pela garrafa de azeite espesso
misturava-se com o vapor acre do vinho
crepitava nas brasas entre castanhas e fumo
afundava-se nas rugas dos velhos
de mãos encarquilhadas
pelo frio e pela usura.

O Deus da minha infância
se acaso me visita
fala-me das vezes temerárias
em que me aventurava nas águas agitadas
de um rio
em que afundava o corpo
na terra ainda quente
e abraçando-me a ele
leva-me de volta ali
a esse lugar remoto de onde nunca parti
a essa funda origem
aonde O conheci.

© Bernado Pinto de Almeida
Audio production: Casa Fernando Pessoa, Lisboa 2004

The God of my childhood


The God of my childhood
was green
green like a bitter
fruit like a vast field
stretching beyond the horizon
he ran up the mountain and down the river
he walked softly down the hillside
he lingered on the grass
in the streams
he announced the spring
blossoming on the young trees.

The God of my childhood
was blond
like serene and undulating wheat
he dug deep the earth that slept
where the crickets sang in the afternoon:
he exploded lively
in each sunrise
he rose in the morning and at night
he protected my sleep
peaceful solitude
of a face resting on the pillow.

The God of my childhood
was blue
he filled the whole sky
he was the dew
on the leaves
the thin air the easy breath
gently rocking the leaves
on the treetops so high
and so full of green.

The God of my childhood
was brief
he could be picked in the heat
of the afternoon
from under the trees as generous as fruit
he could be felt cold against
young teeth
making them hard and white
and luminous
and would pass through each gesture
like an intense signal.

The God of my childhood
as he echoed the voice
heard in the distance
was like a silver horse
below my window
he was a fugitive glance
towards the shadow
where he thought he saw
the whole mystery of the world
all the violence of the afternoons
all the shaped order of the cosmos
so vast
so high
above each and all.

The God of my childhood
with cats that jumped from roofs
with dogs asleep in the sun
with children
who whirled on wheels
around spinning tops.

The God of my childhood
was poor
he heard the voices from fireplaces
he ate the unleavened bread
he rested on top of the old oak table
he followed the deep lines
on the rough wood grain
caressing its darkened knots
he looked out of cheap
glass windows
steamed by humidity
he slid down the bottle filled with thick olive oil
he blended with the acrid vapours of wine
he crackled in the embers among sweet chestnuts and smoke
he drowned in old people’s wrinkles
in their ruddled and worn out hands.

The God of my childhood
when he visits
speaks of daring adventures
fearless swims in the river
the body that then sunk
into the warm and soft earth
and as I embrace him
he takes me back there
to that remote place that I never left
into that deep belonging
where I knew him
where I knew my beginning.

Translated by Ana Hudson