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Ana Luisa Amaral

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Ana Luisa Amaral

Avdio 

A GÉNESE DO AMOR

Talvez um intervalo cósmico
a povoar, sem querer, a vida:
talvez quasar que a inundou de luz,
retransformou em matéria tão densa
que a cindiu, 
a reteve, suspensa,
pelo espaço –

Eram formas cadentes 
como estas:

Imagens como abóbadas de céu,
de espanto igual ao espanto em que nasceram 
as primeiras perguntas sobre os deuses, 
o zero, o universo,
a solidez da terra, redonda e luminosa,
esperando Adamastores que a domestiquem,
ou fogos-fátuos incendiando olhares,
ou marinheiros cegos, ávidos de luz, 
da linha que, em compasso, 
divide céu e 
mar

Quasar é pouco, porque a palavra rasa 
o que a pele descobriu. E a pele 
também não chega: 
pequeno meteoro em implosão 

Estátua em lume, talvez,
à espera, a paz (ainda que haja ausente 
crença ou fé), e, profano, o desenho 
desses estranhos bichos, 
semi-monges, malditos,
deslumbrados,
e uma visão, talvez, 
na penumbra serena de algum 
claustro 

Talvez assim tivesse algum 
sentido 
a génese do amor 


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© Ana Luisa Amaral

Iz: A Génese do Amor

Avdio produkcija: Literaturwerkstatt Berlin 2008