Gastão Cruz

Gastão Cruz

Gegenwartslyrik
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Brackwasser (Deutsch)

ÁGUA SALOBRA


Falava-se da casa (a minha mãe 
falava)
donde viéramos 
porém pouco ficara do lugar colocado
à frente dos espelhos da infância
quando em penumbra a vida 
se envolvia
Na casa nova a ria começava 
logo depois do largo (a feira vinha
com a febre em outubro)
Havia no quintal um poço a corda ia
correndo na roldana e o balde
batia na água com um som vazio
era preciso
bater de novo até encher
subi-lo 
com água que nem plantas poderiam
beber a ria vinha
até ali outrora
água salgada e doce misturara-se 
ambígua no ar da casa sob os tectos 
distantes
tal como a primavera
floria as malvas e aumentava os dias
e no inverno a noite começava 
com a espera do meu pai que parecia
vir sempre tarde com
moedas novas reflectindo ainda
o dia findo
À mesa eu observava-lhe
a mão 
a meu lado pousada e tacteava
na pele irregular as covas que no meio
os dedos estendendo-se formavam
No comprido canteiro do quintal
o pessegueiro dava flor mais tarde 
que a branca amendoeira do quintal do lado
Durante o ano inteiro sobre o muro
os seus ramos tocavam-se


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© Gastão Cruz

Aus: Rua de Portugal

Assírio & Alvim, Lisboa 2002

Audioproduktion: Literaturwerkstatt Berlin, 2008