Pedro Sena-Lino
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zwischenspiel in form von Pessoa (German)
interlúdio em forma de Pessoa
fumando inexplicavelmente versos é que me conheço fumo dos grandes invisíveis humanos conheço a névoa das substâncias mas um corpo líquido é que penso tenho desejo de mim ao passar pelas ruas de ontem queria ter-me entrar por mim como um verso uma espada consciente de carne que me dissesse que existo e sou agora o vazio mais visível dos meus sonhos é dessa fome que traço um caminho bífido mais ou menos raso de raiz angústia quando ardem versos e caminho pelas ruas de hoje tocando apenas nos gestos avenidas de ontem como se reconstitui um corpo de amante perdido de pé nas escadarias dos sonhos mortos tenho um essencial desejo dessa natureza viva e morta que ubiquamente é eu fumo-me para me encontrar entre essa neblina entre a circunstância dos dedos e das rugas consumo-me burlescamente ultraliricamente o que me sai do genital celeste a minha vida a existir é um vício textual uma vontade de partículas incendiadas pelo cego sentido que comanda tudo (à porta do azul o anjo chamou-me com contrários sentou-me num livro de vidro abriu-me o livro pelas costas sussurrando «entra no livro e come» o mistério das asas arde na garganta como o pó que a viva palavra levanta o amor chegou vinha duma ópera de gluck entrou-me pelas imaginações com sede bebedor de distâncias e deixou-me depois da sublime carne das fendas interiores um corpo apenas é este o meu caminho) tenho passado assim o coração dos becos lembro-me do prazer da roupa suja da noite íntima e quente de eu ser usado pelo meu próprio sonhado outro minha vida verdadeira saudade de pedra onde eu sou maximamente nada a cruz a morte e a salvação ler a minha vida assim tão medievalmente geométrica tão em tesão essencial da morte dá-me o prazer carnívoro de me escrever de me deitar rasgado pelo texto fora comendo os braços de mágoas e a pedra em sangue numa brutal obsessão mística por mesmo mim escrevendo-me noutro corpo que me leia alimento-me da minha própria fome grito-me engenho-me trituro-me em todos os versos na carne abandonada de mim eu tenho fome no rosto dividido de mim eu tenho fome do corpo percebido de mim eu tenho fome mas é desta avenida eu que caminho que me alimento neste acto pétreo gnóstico de mim este masoquimisticamente sobre-viver-me é este o meu ciclo alimentar e assassino essa palavra de eu me morder na boca na carne final de que me vivo na língua de pedra dos grandes invisíveis eu como o meu total milagre biofágico vivo



