Pedro Sena-Lino

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Contemporary Poetry
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Pedro Sena-Lino

Autor: Pedro Sena-Lino (Autoren Id: ps03)
Gedicht: [cantigo verde] (Gedicht Id: 3719)
Audio Datei: 3719.mp3
Pfad: fileadmin/lyrikline/mp3/ps03/3719.mp3

You can read this poem in the following translations:

[günes lied] (German)

[cantigo verde]

hoje vou escrever um poema legível
um poema liso perceptível
como uma estrada de sentido obrigatório
onde se visse Deus imediatamente
diante do eu sem sempre lhe tocar
um poema com a pele de álvaro de campos
nos olhos míopes de alberto caeiro
(toda a gente sabe que um é os olhos do outro
e que hoje em dia as lentes progressivas
permitem angústias muito melhor focadas),
uma coisa legível de cinco ou seis patas
com natália correia cruzando jesus cristo
com régio no ventre
e platão chupando os dedos dos pés
a eu ou mim ou o que existia antes
gustav mahler deitado sonhando com dmitri shostakovich
a fumar o livro do êxodo numa flor desconhecida
um poema onde tu durmas o requiem dos ressuscitados
e acordes depois na madrugada do tempo
e o apanhes a dormir um sonho de Deus
um poema que eu possa ler aos meus sobrinhos
aos fantasmas que dormem comigo à espera do meu corpo
e lhes dê um verso como mundo
território eterno para o invisível
 
um poema onde eu 
possa dizer coisas tão espessamente líquidas como
um gato desceu pela noite
as folhas que pisou gritaram
e eu acordei a pensar que
gustav mahler usou chocalhos de vacas
e não pisadas de gato nas folhas
penso nisto democraticamente
como um orçamento retificativo
choro mentalmente pelo gato
mas apenas a sexta de mahler me responde
e penso depois que podia dizer
que a noite desceu pelo gato
e que gritou às folhas
e que sonhei com isto por ser o gato
e isto as folhas e
mim a noite
até porque álvaro de campos pedia à noite que viesse
«vem noite, antiquíssima e idêntica…»
(isto é o que se chama um mecanismo poético masturbatório)
que é tocar em si próprio tantas vezes
que o poema seja espesso branco agarrado autorreferente a si
          
o que se passa neste poema que entretanto já perdeu 66% dos seus leitores
é precisamente o facto de ser absolutamente legível
é isto a pós-modernidade
rigorosamente legível referencial
e fascinante como um palimpsesto
e é por isso que apago a luz
como se apagasse o modernismo
e fôssemos todos dormir para os poemas do século XXI
alguma coisa de final e ilegível
como o gato ser a noite do dia
e passasse pelo poema via ao sentido único
para pedir a platão que me chupasse os dedos todos
e a Deus um dedo vago
que ressuscitasse as palavras 
os gatos
e todos os passeios noturnos


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© Pedro Sena Lino

Audio production: Literatuwerkstatt Berlin 2008