Bernardo Pinto de Almeida
You can read this poem in the following translations:
Der Gott meiner Kindheit (German)
The God of my childhood (English)
O Deus da minha infância
O Deus da minha infância era verde verde como um fruto amargo como um campo extenso alargando-se até para lá do horizonte corria montanhas e rios descia suave pelas colinas detinha-se nas ervas nos riachos anunciava nas árvores jovens o rebentar da primavera. O Deus da minha infância era loiro como trigo sereno ondulante cavava fundo a terra adormecida e as cigarras cantavam nela ao fim da tarde: explodia vivamente em cada sol nascia pela manhã e velava de noite o meu sono a solidão tranquila do rosto moldado na almofada. O Deus da minha infância era azul estava em todo o céu como o azul era as gotas de orvalho sobre as folhas o ar muito fino e respirável que a cada hora atravessava a folhagem os ramos muito altos e os enaltecia de verde. O Deus da minha infância era breve colhia-se na tarde ao calor sob as árvores generosas como frutos e apertava-se frio contra os dentes imaturos tornando-os rijos e brancos luminosos passando em cada gesto como um sinal intenso. O Deus da minha infância ao descer da voz ouvida ao longe era um cavalo de prata junto à minha janela era um olhar fugaz que se voltava para a sombra e que julgava ver nela todo o mistério do mundo toda a violência das tardes toda a ordem plasmada no cosmos muito amplo acima de todos de cada um de nós. O Deus da minha infância brincava com os gatos que saltavam dos telhados com os cães que adormeciam ao sol com as crianças que rodopiavam em rodas em torno do pião que rodava. O Deus da minha infância era pobre escutava as vozes das lareiras comia a broa âzima pousava sobre a mesa de castanho velho e detinha-se nas linhas fundas da madeira nos seus nós escurecidos: assomava às janelas de vidro barato coalhadas da humidade descia pela garrafa de azeite espesso misturava-se com o vapor acre do vinho crepitava nas brasas entre castanhas e fumo afundava-se nas rugas dos velhos de mãos encarquilhadas pelo frio e pela usura. O Deus da minha infância se acaso me visita fala-me das vezes temerárias em que me aventurava nas águas agitadas de um rio em que afundava o corpo na terra ainda quente e abraçando-me a ele leva-me de volta ali a esse lugar remoto de onde nunca parti a essa funda origem aonde O conheci.



